A banda The Beatles, em 7 anos de trajetória, gravou por volta de 200 músicas, divididas em 13 álbuns de estúdio e uma dezena de singles. Agora, imagine se os garotos de Liverpool tivessem permanecido juntos por mais tempo e lançado outras 800 faixas, com um nível interessante de qualidade e apresentando, inconfundivelmente, as vozes de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e a bateria de Ringo Starr.
As questões éticas envolvendo o uso de IA (Inteligência Artificial) para criar obras derivadas de outros artistas vêm sendo debatidas desde que o poder do machine learning se tornou uma ameaça real para essa classe de profissionais. Ainda não há um consenso sobre o limite do uso dessas ferramentas e, enquanto não houver, o mercado criativo estará sob o risco de um colapso de empregos e desmantelação.
Esse é um cenário exagerado ou a IA realmente oferece perigo à indústria criativa?
A IA na música
As ferramentas de criação musical através de IA funcionam de uma maneira simples: elas transformam as informações das obras que já foram lançadas de um gênero ou banda em dados, encontram uma comunalidade entre eles e criam faixas que copiam as originais, mas com uma leve distinção.
A cada mês as ferramentas ficam melhores em criar obras realistas, fazendo com que distinguir uma música real de uma feita por IA seja cada vez mais difícil. Mas para quem não é do campo criativo, isso importa?
Alimentar uma ética anti-IA para preservar o caráter humano da arte é mais importante do que permitir que este novo avanço tecnológico nos brinde com experiências inimagináveis, como dar vida a centenas de novas músicas dos Beatles?

Talvez seja natural que certas pessoas passem a simplesmente não se importar se uma obra provém de IA ou de um grupo de seres humanos, ainda mais se elas só consomem música casualmente. Essa é a percepção que o Spotify já utiliza há anos para inserir faixas genéricas em playlists da plataforma, fazendo com que eles não precisem pagar royalties mais caros a músicos.
Quando as “AI generated songs” ganham repercussão e viralizam, estamos normalizando uma nova realidade; estamos correndo o risco de perder noção do que é real, de aceitar esse novo cenário e reduzir os estigmas que vêm com ele, como o que ocorreu com essa nova banda feita por IA, que já lançou dois discos, tem uma sólida história de banda – e fãs.
As inovações pela IA despertam a discussão sobre o sentido de sequer produzir artisticamente.
O CEO da empresa Suno AI, Michael Shulman, em um episódio recente do podcast “20VC”, da 404 Media, disse: “Não é mais agradável criar música agora. É necessário muito tempo, requer muita prática, você precisa ficar muito bom em um instrumento ou muito bom em um software de produção musical.”
“Eu acredito que a maioria das pessoas não gosta da maior parte do tempo que elas passam criando música”, disparou o CEO.
E como solução para essa suposta dificuldade, está a ferramenta de criação instantânea de músicas do Suno AI. O comentário do executivo norte-americano é um exemplo de como empresas de inteligência artificial tentam disseminar narrativas para justificar o uso de suas ferramentas – que são apenas o seu produto, e não necessariamente uma solução definitiva.
Estamos falando mais de mercado do que qualquer outra coisa quando falamos de IA.
As inovações tecnológicas idealmente existem para melhorar processos, reduzir perdas e trazer qualidade de vida para o ser humano. Mas isso não significa que seja uma obrigação da sociedade assimilá-las em todas os setores da vida.
Criação humana x Criação por IA
Como ferramenta à disposição, espera-se que a IA seja usada como um funil para excluir quem possui a habilidade de utilizar suas funções e quem não, incluindo na indústria criativa.
A previsão é que ferramentas de inteligência artificial sejam globalmente incorporadas à produção artística, oferecendo uma etapa de criação e manipulação de elementos que fará parte do processo criativo dos profissionais.
Mas se isso significa, por exemplo, que a criação musical passará a acontecer unicamente através da inserção de prompts, deixando de lado os momentos de introspecção de um ser humano real com um instrumento real, espera-se profundamente que não. Se isso acontecer, o que irá definir um artista? A capacidade de escrever boas palavras-chave e colocá-las no Suno?
Um estudo realizado em 2015, nos Estados Unidos, revelou que as pessoas param de escutar novas músicas a partir dos 33 anos. O que elas moldam de gosto musical até então é o que permanece até o fim da vida, segundo a pesquisa.
É assustador pensar que estaremos inundando o desenvolvimento musical de uma geração com faixas genéricas, sem história e sem senso crítico, caso a criação através de IA vire a norma. A música estará perdendo o seu valor se for usada apenas como objeto de consumo imediato e entretenimento vazio.
O culto à personalização da experiência
O consumo capitalista, de modo geral, tem se tornado cada vez mais uma experiência personalizada. No caso da música, os dias em que você tinha que se contentar com ouvir apenas os discos que possuía fisicamente, acompanhado de outras pessoas e através de alto-falantes ficaram para trás.
As big techs tentam empurrar experiências personalizadas porque esse modelo está atrelado ao isolamento social da vida contemporânea e é baseado em estratégias de marketing construídas a partir da coleta de dados em redes digitais.
Nos tornamos meros consumidores de informação. O filósofo sul-coreano Byon Chul Han denomina esse novo tempo como regime da informação em seu livro “Infocracia: Digitalização e a Crise da Democracia”.
É um capitalismo de vigilância que degrada os seres humanos em consumidores de dados.
Previsão
As empresas de tecnologia de IA tentarão, em um futuro próximo, incentivar cada indivíduo a gerar instantaneamente as suas próprias músicas para consumo imediato, com estilos personalizados, detalhes específicos que refletem o momento de vida que passam, com o cantor favorito póstumo entoando a melodia, com estrofes escritas pela escritora predileta que referem aos seus dramas pessoais, e outros enfeites que personalizam a experiência e prendem a uma bolha, totalmente descolada da realidade objetiva.
A experiência artística estará passando de mãos, com o esquecimento do páthos de outrora, criado pelos verdadeiros artistas, para a dominação e exploração capitalista do mundo da arte, da cultura e da imaginação.
Pedro Basso é graduado em Administração Pública pela Universidade Estadual de Campinas, Analista de Mídia no Hora Campinas e músico.











