Invariavelmente escuto, durante conversas realizadas com amigos e parentes, um discurso de que a grande maioria de políticos brasileiros não vale nada, são corruptos, aproveitadores, dissimulados, enfim, são pessoas da pior espécie. Os colocam, todos, no mesmo caldeirão. Eu, não. Acredito que nunca se pode generalizar em relação a nada, e que há – embora uma minoria – políticos bem intencionados e honestos.
Procuro sempre dizer que os nossos políticos “não vieram de Marte”. Isso mesmo. Os políticos brasileiros nasceram no Brasil, foram educados por pai e mãe brasileiros, foram instruídos, nos ensinos fundamental e médio, em escolas públicas ou privadas brasileiras e concluíram seus estudos em universidades públicas ou privadas brasileiras; enfim, digo que a nossa classe política serve-nos, em verdade, como um grande espelho.
Explico: como “não vieram de Marte”, no Congresso Nacional, por exemplo, estão exercendo os cargos de senadores e deputados federais, advogados, médicos, ex-militares, ex-magistrados e ex-promotores de justiça, empresários, comerciantes, engenheiros, produtores rurais etc., enfim, toda a sociedade brasileira está ali representada.
Caso sejam maus representantes para os que os elegeram, cometendo uma série de irregularidades e delitos, já traziam consigo esta tendência. Apenas, em referidas Casas de Leis, encontram oportunidades para praticarem condutas ou omissões condenadas pela legislação, pela moral e pela ética. O povo diz que a oportunidade faz o ladrão. Será?
Muitos de nós, brasileiros, que criticamos ferozmente a nossa classe política, frequentemente desrespeitamos as boas condutas em sociedade, tais como jogar lixo em vias públicas, “furar” filas, num congestionamento podar os demais carros pelo acostamento, dirigir em excesso de velocidade, “gatos” de água e energia elétrica, abrir e consumir produtos no interior de supermercados e não pagar pelo produto, não ceder lugar a idosos e pessoas com necessidades especiais em transportes públicos, utilizar, inadequadamente, vagas destinadas a pessoas idosas e com necessidades especiais, sonegação de tributos, emissão de atestados falsos por médicos e dentistas, falsificação de documentos públicos e privados para várias finalidades, falsos testemunhos em processos judiciais etc. A gama de irregularidades e delitos perpetrados por muitos brasileiros é enorme. E digam que não! Todos nós sabemos e já presenciamos situações como as enumeradas acima.
Como, então, colocar a questão de forma simples, como sendo “nós (povo) e eles (políticos)?” Nós, bonzinhos; eles, mauzinhos. Não. Repito: os que nos representam em todas as esferas e em todos os cargos eletivos (municipais, estaduais e federais) surgiram de nossa própria população, “não vieram de Marte”.
Temos que, definitivamente, assumir a nossa mea-culpa. Grande parte dos brasileiros segue aquele famoso aforismo contido numa propaganda de cigarro protagonizada pelo campeão mundial de futebol em 1970, Gérson: “O negócio é levar vantagem em tudo, certo!” (a famosa Lei de Gérson). Enquanto não nos conscientizarmos que a melhor “malandragem” é sermos corretos, agirmos em conformidade com as leis e regramentos, este modo de agir de muitos brasileiros se perpetuará, sendo transmitido de geração para geração.
“Alguns chegam a afirmar que o nosso DNA teria sido “contaminado” por inúmeros portugueses que foram degredados de Portugal para o Brasil/Império e Brasil/Colônia. Muitos portugueses criminosos de alta periculosidade, em referidas épocas, teriam sido expulsos de Portugal para o Brasil e aqui se estabelecendo. Porém, será mesmo que essa simples explicação é capaz de nos livramos de nossas responsabilidades individuais e coletivas, como nação diversificada que somos? Ao que tudo indica, não. Seria como tirar um peso das próprias costas, projetando-o para quem não pode se defender…
Em tom de brincadeira, durante conversas desse teor, aqui examinado superficialmente, costumo dizer: “A culpa é de Pedro Álvares Cabral; o melhor mesmo a fazer é devolver o Brasil aos povos nativos (a população aqui residente em 1500 era de, aproximadamente, cinco milhões de habitantes) e lhes pedir desculpas” (risos).
Tomara que as gerações que estão a nos suceder possam, definitivamente, reverter essa nossa cultura da Lei de Gérson, que possamos alterar o nosso conceito perante os demais países do mundo e que, de uma vez por todas, deixamos de ser o país do futuro. Que possamos ser o país do presente. Temos tudo para dar certo. Só depende de nós. Nossos políticos somos nós. Pensemos nisso! Saudações!
Armando Bergo Neto é Advogado e Ex-Procurador Geral da Câmara Municipal de Campinas











