Um daqueles relógios digitais que estão nas ruas de Campinas marcava 37 graus em um ponto do Cambuí onde eu estava ontem por volta de meio-dia. Sabemos que esses relógios não registram a temperatura “oficial”, que é medida em algumas estações, como aquelas sob responsabilidade do Cepagri da Unicamp e do CIIAGRO, do governo paulista. Ontem a estação do CIIAGRO-Taquaral registrou 35,4°C às 16h20, temperatura mais alta do ano até aqui. Na quinta-feira pode chegar a 36 graus na Cidade das Andorinhas.
O certo é que todos estão com a sensação de estar vivendo dentro de um forninho e se viram como podem. Mais água, mais ventilador ou ar condicionado para quem pode e muita sombra, também para quem pode. Uma reportagem de TV local pouco depois que flagrei os 37 mostrava o desalento de quem necessita de ônibus para chegar ao trabalho, médico ou escola. Apenas 30% da frota tem ar condicionado, segundo a mesma reportagem.
Não há mais dúvidas, se é que havia alguma. As temperaturas estarão cada vez mais quentes em várias épocas do ano, sobretudo nos grandes centros urbanos. Recordes têm sido batidos no Rio de Janeiro e em São Paulo. No Rio Grande do Sul, já virou comum chamar Porto Alegre de Forno Alegre.
As mudanças climáticas estão aí e vieram mais rápido do que os próprios cientistas imaginavam. Cada ano tem sido mais quente que o outro, conforme as medições de órgãos como o centro europeu Copernicus. Então está mais do que na hora de acelerar o enfrentamento das mudanças do clima, no rumo das Cidades Resilientes propostas pelo Comitê de Coordenação Global da Iniciativa Construindo Cidades Resilientes (MCR2030) e Escritório das Nações Unidas para Redução de Risco de Desastres-UNDRR.
Estes órgãos reconheceram Campinas como o primeiro Centro de Resiliência do Brasil, justamente pelas medidas tomadas para preparar a cidade para desastres, que tendem a ser intensificados com as mudanças climáticas. Campinas liderou durante muito tempo a campanha das citadas agências das Nações Unidas por Cidades Resilientes.
Outra notícia relevante nesse sentido é que o prefeito Dario Saadi acaba de ser eleito presidente do Conselho de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Campinas (RMC), com as prioridades anunciadas de atenção para as áreas da saúde e das mudanças climáticas.
O prefeito participou das últimas duas COPs do Clima, as COPs-28 e 29, respectivamente em Dubai e Azerbaijão, e se integrou às discussões sobre o papel fundamental das metrópoles no enfrentamento das mudanças do clima.
As expectativas com relação ao que Campinas e a RMC em geral farão em termos de enfrentamento das mudanças climáticas são realmente altas. O histórico do que tem ocorrido com o saneamento básico na cidade e região é um indicador positivo.

Durante muito tempo, Campinas foi muito criticada por, sendo a maior cidade da região, não tratar em grande escala os seus esgotos urbanos. A reclamação era grande no âmbito das bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ). No entanto, desde o início do século 21, tem investido forte no saneamento, com uma atuação incisiva da Sanasa, e o jogo virou, servindo como um exemplo para toda a região. Piracicaba também fez investimentos relevantes no setor. Hoje os índices de tratamento de esgoto nas bacias PCJ são consideráveis, com a liderança de Campinas, que trata mais de 90% do que é coletado.
Campinas e toda a RMC podem avançar consideravelmente também na resiliência às mudanças climáticas. É sabido que a região sedia um dos polos de ciência, tecnologia e inovação mais importantes do país, e que já está atento às demandas, por exemplo, da transição energética. Falta, historicamente, um diálogo mais sólido entre as instâncias governamentais e esse polo de inteligência. A cidade também é sede de uma das mais importantes empresas de energia do Brasil, que tem ampliado seu portfolio em energias renováveis.
Muito há o que fazer, mas é essencial que seja feito. Apenas mudanças na esfera das cidades e regiões levarão a transformações no macro, em termos de país, e isso em todo o planeta.
No caso do Brasil, os governos federais, de direita ou de esquerda, têm-se mostrado distantes das reais necessidades geradas pela emergência climática global. O nó que representa a intenção de setores do governo federal em explorar petróleo na foz do Amazonas, em plenos preparativos para a COP-30, demonstra as contradições que permanecem, como já acentuado neste espaço.
Ontem mesmo, no cenário de reclamação nacional pelas altas temperaturas, o governo Lula 3 deu mais uma demonstração de distanciamento das exigências impostas pelas mudanças do clima. O ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira, anunciou a adesão do Brasil à OPEP+, que reúne aliados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo.
Imediatamente houve protestos entre cientistas e ambientalistas. “A adesão do Brasil a qualquer instância da Opep é mais um sinal de retrocesso do governo”, disse a coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo. “Continuar a abrir novas áreas de exploração de fósseis em meio ao calorão que estamos sentindo, ao aumento de eventos extremos em toda parte do planeta, denota negacionismo e indica que escolhemos soluções do passado frente a um enorme desafio do presente e do futuro. Usar recursos de plataformas já em operação para financiar a transição energética faz todo sentido. Intensificar e protelar o uso de fósseis para uma demanda que precisa urgentemente cair é como fazer uma guerra alegando buscar a paz”, concluiu.
A pressão tem que partir das cidades, das regiões, da cidadania organizada, até atingir as esferas mais altas de poder. De novo, não apenas no Brasil, mas emtodo mundo. Esperar posturas corajosas dos altos círculos governamentais, qualquer que seja o governo, é jogar o próprio futuro fora.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com











