Está chegando a cerimônia do Oscar de 2025 e é crescente a expectativa em relação a “Ainda estou aqui”, o filme de Walter Salles que já é amplamente vitorioso pelo número de brasileiros e cinéfilos de vários países que o assistiram até o momento. A possibilidade de, finalmente, o Brasil comemorar um Oscar genuinamente “seu” vem empolgando o país, ou grande parte dele. Uma premiação em pleno Carnaval será uma glória, provavelmente comparada a um campeonato mundial de futebol que, aliás, faz tempo que não é comemorado por aqui.
Mas o filme estrelado por Fernanda Torres, Selton Mello e grande elenco também já é um sucesso por ter provocado um debate sobre um tema que muitos, infelizmente, gostariam de ver esquecido. O tema é a ditadura civil-militar de 1964 a 1984, que deixou marcas profundas na sociedade brasileira e que é amarga em especial para as famílias de suas vítimas, que sofreram prisão, exílio e, sobretudo, morte e desaparecimento, como o caso da família em tela, a do ex-deputado Rubens Paiva. O recente e covarde ataque físico a Marcelo Rubens Paiva, autor do livro que deu origem ao filme, é um claro exemplo de que essa questão, a dos malefícios do período ditatorial, precisa ser muito mais discutida e esclarecida no país.
Enfim, “Ainda estou aqui” vem cumprindo um papel pedagógico e histórico de suma relevância. O Brasil não pode aceitar nenhum retorno a uma situação de negação da democracia e do Estado de Direito. O cinema mostra-se mais uma vez poderoso como meio de reflexão e debate de temas essenciais para a sociedade em geral.
Pois essa modalidade artística, que tem uma trajetória ainda tão curta na história da humanidade, também pode vir a contribuir muito mais para outra questão central, a da própria sobrevivência da civilização como conhecemos. A civilização atual, com bases industriais e tecnológicas, de alta concentração populacional em zonas urbanizadas cada vez mais densas, com alto uso de energia de fontes fósseis, mostra-se em xeque, pela conjunção de graves crises planetárias, a da emergência climática entre elas, mas não somente.
O cinema já produziu importantes obras sobre temas socioambientais que provocaram férteis controvérsias. Talvez a mais famosa delas até agora seja o documentário “Uma verdade inconveniente”, o filme de 2006 dirigido por Davis Guggenheim sobre a campanha liderada pelo ex-vice-presidente norteamericano, Al Gore, para alertar o planeta sobre as origens e os impactos das mudanças climáticas.
O filme que ganhou o Oscar de Documentário e foi decisivo para Al Gore ganhar o Prêmio Nobel da Paz em 2007, junto com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), de fato foi determinante para fortalecer a urgência de soluções coletivas para o enfrentamento da emergência climática global. Claro, o filme também despertou a ira dos negacionistas do clima, em particular entre os setores afinados com os interesses das empresas que lucram com os combustíveis fósseis como petróleo, carvão e gás natural.
Outros filmes também poderiam ser citados por abordar temas socioambientais, como “Erin Brokovich”, de 2000, que rendeu o Oscar a Julia Roberts, ou, antes, “Síndrome da China”, de 1979, com Jane Fonda, Jack Lemmon e outros. Neste caso, o filme foi particularmente premonitório. “Síndrome da China”, que enfoca um acidente em usina nuclear, foi lançado no dia 16 de março de 1979. No dia 28 de março, aconteceu o acidente com a usina nuclear de Three Mile Island, na Pensilvânia.
No Brasil, também já foram produzidos filmes importantes com a temática socioambiental. Provavelmente o mais famoso seja “Ilha das flores” (Jorge Furtado, 1989). O documentário foi nomeado como melhor curta-metragem da história do cinema brasileiro pelo ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Este documentário segue a coleta de lixo de Porto Alegre que, a poucos quilômetros da capital, era depositado num terreno de criadores de porcos; quando os empregados tinham separado aquilo que podia ser usado para a alimentação de porcos, mulheres e crianças, que faziam fila fora da cerca, esperavam a sua vez.
Mas o cinema de animação também tem produzido obras de alto valor em termos de discussão de temas socioambientais. Nesse sentido é louvável o trabalho do Núcleo de Cinema de Animação de Campinas que, aliás, está comemorando 50 anos em 2025.
São exemplos os desenhos realizados junto a crianças indígenas, como “Çuikíri”, que foi realizado na Amazônia, em São Gabriel da Cachoeira, em 1991; “Kamenã” com indígenas no Xingu, de 10 etnias diferentes; “Wirandé”, realizado em 1992 com um índio baré e crianças campineiras; “Stop Poluição”, realizado em Moçambique com jovens estudantes da Escola Nacional de Audiovisual; “Animando o Pantanal”, realizado em Poconé-MT com crianças pantaneiras.
Ou seja, além de produzir filmes de alto valor artístico, o Núcleo de Cinema de Animação de Campinas tem realizado oficinas com crianças de várias regiões do país, capacitando novos futuros realizadores. Recentemente, uma nova oficina foi realizada em Pirapora do Bom Jesus, cidade conhecida pelas romarias religiosas e também por ser o berço do samba paulista. Crianças e adolescentes de 10 a 14 anos tiveram contato com técnicas de animação que sempre encantam e que hoje estão ainda mais disponíveis pelo desenvolvimento tecnológico em curso.
Com realizadores como Wilson Lazaretti e Mauricio Squarisi, entre outros, o Núcleo de Cinema de Animação de Campinas, o segundo no mundo com seu perfil, tem sido uma referência em promoção de uma nova sociedade através da arte. Que esse exemplo se multiplique, pois é o próprio futuro da civilização que conhecemos que está em risco.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com











