Famílias desmoradas por um vírus que colocou a humanidade de joelhos. Um ano e quatro meses depois do primeiro caso de Covid-19 registrado no Brasil, o País contabiliza a triste marca de 500 mil mortos. É como se toda a população dos distritos do Ouro Verde e Campo Grande, em Campinas, fosse dizimada. Ou quase metade de todos os campineiros. Ou ainda, Indaiatuba e Americana juntas.
As comparações são necessárias para que haja o mínimo de referência e empatia, sentimento, aliás, em desuso nestes tempos tão sombrios.
A espiral do SARs-Cov2 no Brasil encontrou brechas e terreno fértil no comportamento irresponsável, no negacionismo e na negligência. Somados, esses fatores construíram um cenário que coloca o País num dos mais tristes retratos mundiais da pandemia. Ainda que narrativas tentem minimizar a tragédia, eufemizando os números diante do conjunto de uma população continental, a verdade é que a Covid-19 robusteu-se porque faltou, desde o início, comando central no enfrentamento.
O País, com rede virtuosa do SUS, poderia encarar a pandemia com muito mais organização. Entregou-se à politização e à polarização. Ambas foram capitais.
Houvesse um capitão preparado para essa batalha, certamente o resultado seria diferente. Mas ele, mais preocupado com as vicissitudes palacianas e com o entorno paralelo que o afastou da ciência, buscou não só diminuir a importância da tragédia, mas também negá-la, contra evidências, números e dores. A vacina, ignorada, só agora começa a ser acelerada.
O Brasil que chega hoje aos 500 mil mortos é um país dividido e tensionado. Não houve, como se espera numa luta coletiva, uma mobilização para combater o inimigo comum. Perdeu-se e perde-se muito tempo com bobagens.
Além da atitude criminosa de autoridades, o Brasil padeceu porque houve quem seguisse o canto da sereia. Houve quem, mesmo com farta informação e jornalismo crítico, entregou-se ao mundo do zap zap, compartilhando asneiras, buscando soluções mágicas. O vírus encontrou aqui o que precisava: espaço para multiplicar-se.
Festas clandestinas, encontros irresponsáveis e deboche contra o uso de máscaras estão aí, registrados, para explicar esse descompromisso com a saúde coletiva.
O Brasil só perde para os EUA (600 mil) em número absoluto de mortos. A diferença é que lá a vacinação está muito mais adiantada. Índia contabiliza 385 mil óbitos e México, 230 mil. Em relação ao número de mortes por 100 mil habitantes, o País é o nono em todo o mundo, atrás, pela ordem, de Peru, Hungria, Bósnia e Herzegovina, República Tcheca, San Marino, Macedônia do Norte, Montenegro e Bulgária.
No momento, o governo Bolsonaro está pressionado por uma CPI que tenta materializar a sua responsabilidade direta na tragédia. Independentemente do xadrez político, a história narrará, no futuro, um enredo de desprezo à vida e de arrogância social. Quem perdeu um ente querido chora a sua morte e vivencia o vazio. O Brasil precisa aprender com a pandemia para seguir em frente.











