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Home Colunistas

Emergência climática não será enfrentada sem boa educação – por José Pedro Martins

José Pedro Martins Por José Pedro Martins
6 de dezembro de 2023
em Colunistas
Tempo de leitura: 5 mins
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Emergência climática não será enfrentada sem boa educação – por José Pedro Martins

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, discursa na sessão de abertura da Presidência da 28ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP28), em Dubai. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Os últimos dias foram de muita polêmica no Brasil sobre como o país vai continuar se posicionando frente a uma das mais graves crises já enfrentadas pela humanidade, a emergência climática. Enquanto o país chegou à COP-28 em Dubai com números promissores sobre redução do desmatamento na Amazônia, maior fonte nacional de emissão de gases de efeito-estufa, o noticiário foi “poluído” pelo fato de o governo Lula ter aceito integrar a OPEP +. Ou seja, será observador na organização que reúne os maiores produtores e exportadores de petróleo, justamente uma das principais causas do agravamento das mudanças climáticas.

Neste cenário, permanece a dúvida sobre se o Brasil de fato vai tentar ser líder global da transição energética ou se continuará investindo em combustíveis fósseis como o petróleo, aliás como o mundo em geral. Entretanto, nesta terça-feira, 5 de dezembro, novos dados sobre o estado da Educação no país mostram uma questão provavelmente ainda mais grave: a nova geração de brasileiros, que vai lidar diretamente com o aprofundamento das mudanças climáticas, está de fato preparada para a magnitude desse tema, além de outros de enorme gravidade, como a crise da biodiversidade e a influência cada vez maior da Inteligência Artificial na vida humana etc etc?

Essa dúvida é retomada diante da divulgação dos resultados da edição de 2022 do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA, na sigla em inglês), pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O PISA é uma prova internacional, promovida a cada três anos pela OCDE, com estudantes na faixa de 15 anos, com foco a cada edição em uma área do conhecimento: Leitura, Matemática ou Ciências. A edição de 2022 teve como foco Matemática, embora também fossem feitas avaliações sobre as outras áreas. Outro foco em 2022 foi o Pensamento Criativo, conforme a tendência do PISA em também avaliar outras competências consideradas fundamentais para o século 21.

O PISA sempre gerou controvérsia. Ele recebe críticas porque acaba sendo uma comparação entre países que na prática não deveriam ser comparados, isto é, entre países em desenvolvimento como o Brasil e os países em estágio mais avançado de desenvolvimento, como os da Europa ocidental.

No Brasil, como se sabe, a educação pública enfrenta enormes dificuldades, o subfinanciamento como uma das maiores delas. Não daria para comparar com os citados europeus ou alguns países asiáticos, onde o investimento em educação (voltada para o processo produtivo) tem sido intenso.

Assim, não dá para falar que os resultados do PISA de fato espelham o panorama da educação de um país. Eles devem ser lidos com foco no que avaliam, as competências dos estudantes em algumas disciplinas/habilidades. De qualquer modo, o exame que é rigoroso mostra pistas importantes sobre o que ocorre com a educação nos países avaliados, inclusive o Brasil.

De modo geral, o PISA 2022 mostrou uma queda generalizada na performance educacional em quase todos os países, como um claro reflexo da pandemia de Covid-19.

No caso do Brasil, os números mostraram estabilidade em relação às últimas edições do exame. Números que colocam o Brasil em posição distante da performance da média da OCDE, com as ressalvas colocadas acima.

 

O ministro da Educação, Camilo Santana, e o presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Manuel Palacios, durante a divulgação dos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2022. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

 

Em Matemática, o Brasil recebeu a nota 379 em 2022, em comparação com a média de 480 na OCDE. Em Leitura, a média brasileira foi de 410, sendo de 482 na média da OCDE. E em Ciências, a nota do Brasil foi de 403, contra a média na OCDE de 490.

Os resultados mostraram ainda que, em Matemática, 73,7% dos estudantes brasileiros estão na faixa 1 de desempenho, que é a faixa de menor desempenho pelos critérios do PISA. A média na OCDE de estudantes nessa faixa 1, em Matemática, é de 31,1%. Na prática, isto quer dizer que mais de 70% dos estudantes brasileiros não conseguem resolver problemas simples de Matemática na faixa dos 15 anos, aquela que corresponde aos alunos no primeiro ano do Ensino Médio.

O PISA 2022 revelou que somente 1% dos estudantes brasileiros estão nas faixas 5 e 6 em Matemática, aquelas de maior proficiência pelos critérios do exame da OCDE.

Na média dos países da OCDE, 9% dos alunos estão nas faixas 5 e 6 em Matemática. Em Leitura, 2% dos estudantes brasileiros estão nas faixas 5 e 6, contra a média de 7% na OCDE. Em Ciências, 1,2% dos estudantes brasileiros estão nas faixas 5 e 6, em relação aos 7,5% em média na OCDE.

Alguns dados do PISA 2022 fornecem informações relevantes sobre fatores que incidem sobre a educação no Brasil. Por exemplo, no quesito segurança, 19% dos estudantes brasileiros não se sentem seguros no trajeto de casa para a escola, contra a média de 8% na OCDE. Além disso, 10% dos brasileiros não se sentem seguros na sala de aula, contra 7% na média da OCDE. É evidente ser fundamental uma política de segurança, de corte humanista, relacionada às escolas brasileiras, como contribuição à melhoria da Educação.

Outro dado importante é que cerca de 22% das meninas e 26% dos estudantes brasileiros declararam ser vítimas de bullying algumas vezes por mês. Na OCDE, a média é de 20% para as meninas e 21% para os meninos. Também é evidente que a questão do bullying precisa ser melhor compreendida no Brasil, pela definição de ações concretas de enfrentamento, também como parte da busca da qualificação do ensino e aprendizado.

Mais uma informação que chama a atenção do PISA 2022 é que 80% dos estudantes brasileiros participantes do exame admitiram se distrair com o uso de celulares em algumas aulas de matemática, contra a média de 65% (igualmente alta) nos países da OCDE.

Claro está que o uso de celulares/smartphones representa um importante desafio para as salas de aula no Brasil e no mundo em geral. Respostas a esse e outros dilemas, de incidência direta no processo de ensino e aprendizado, ainda estão em aberto, com certeza.
Em suma, o PISA 2022 confirmou o que já se sabia. O Brasil ainda tem muito o que caminhar na qualidade da Educação. Um retrato mais fiel será propiciado na edição de 2025, quando o universo de alunos brasileiros participantes deverá subir dos atuais 11 mil para quase 40 mil.

Em 2024 termina o prazo de dez anos do atual Plano Nacional de Educação. Praticamente todas as 20 metas estabelecidas em 2014 não serão cumpridas em sua integridade. O PNE de 2024-2034 terá que ser muito mais ousado, muito mais contundente, para que o Brasil de fato caminhe para um estágio educacional mais condizente com os desafios do século 21. E que desafios. O PISA 2022 foi só um indicativo de que é preciso fazer muito mais para que as atuais e futuras gerações estejam melhor preparadas para enfrentar os graves dilemas atuais e aqueles que ainda estão por vir, a emergência climática entre eles.

 

José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com

Tags: Águaaquecimento globalcolunistasecologiaefeito estufaempresasgestãogovernosHora CampinasHora Sustentabilidadejosé pedro martinsmeio ambienterecursos naturaissustentabilidade
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