Quando lançado, em janeiro, O Tigre Branco (The White Tiger, EUA/Índia, 2021, 125 minutos), que o americano de origem iraniana, Ramin Bahrani, escreveu, dirigiu e coproduziu, foi saudado como “O Parasita de 2021” (o premiado filme do coreano Bong Joon-ho que ganhou Cannes e o Oscar no ano passado). O brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus, 2002), chamou-o de “filmaço” e escreveu ensaio para a Variety, a famosa revista de entretenimento de Nova York. A crítica, incluindo a brasileira, o cobriu de elogios. Entretanto, no Globo de Ouro o filme passou batido e no Oscar recebeu uma indicação – roteiro adaptado.
Bahrani realizou o sonho de qualquer cineasta de ter controle sobre a produção e tem méritos ao propor equação de difícil execução: imprimir digitais próprias e ter autonomia para tangenciar temática séria e obedecer leis do mercado com produto destinado ao grande público. O Tigre Branco tem estrutura simples e recursos audiovisuais sofisticados. O corte rápido da edição imprime ritmo à narrativa, a fluência do roteiro acentua as características da jornada do herói (neste caso, anti-herói), a mise-en-scène (com ambientação e direção de arte) se encarrega do realismo de uma história fantástica e, portanto, inverossímil, e os atores, em especial os indianos Adarsh Gourav (Balram), Rajkummar Rao (o patrão Ashok) e Priyanka Chopra Jonas (Pinky, a namorada) estão bem.
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Sem ser pernóstico, o roteiro vasculha as entranhas da miséria indiana e lança luzes sobre o debate de um capitalismo tão pernicioso que, se fosse chamado de selvagem, correria o risco de ofender os animais irracionais. Tal virtude perde força porque o diretor/roteirista exagera no afago ao mercado. O exercício lembra a canção Cotidiano número 2, de Vinícius de Moraes e Toquinho na qual o bordão (“mas não tem nada não/ tenho meu violão”) derruba qualquer questionamento sério. O filme suscita discussão sobre questões filosóficas, como a ética, em um tempo em que tudo se tornou relativo, mas apela para o humor fácil para atrair espectador de entretenimento.
Baseado no romance de Aravind Adiga, o papel principal cabe ao motorista Balram (Adarsh Gourav quando adulto), tipo popular que narra a própria história, tratado com desprezo pelos patrões ricos. A empatia nasce deste princípio: ninguém gosta de ser menosprezado e ninguém gosta de ver o outro ser humilhado.
Ótimo aluno, o protagonista abandona os estudos para trabalhar. Certo dia, assiste ao pai ser estapeado no meio da rua e diante da família por poderoso homem que cobra pedágio dos pobres.
Nesse dia ele aprende que em um país de muitas castas como a Índia existem apenas duas: a dos ricos e da dos pobres. Para não repetir a história, Balram sonha descontruir o próprio destino e se candidata a motorista do opressor do pai. A inteligência e um pouco de estudo lhe servirão de suporte, mas ele precisará usar de astúcia e de meios menos nobres.
Se nos solidarizamos com Balram, quando o personagem se vale de meios escusos o roteiro terá enorme esforço para convencer o espectador sobre a impossibilidade de ser ético em um país cuja opressão está impregnada na cultura e na religião e no qual predomina o tal capitalismo voraz. Entre bichos, o forte domina o fraco visando o alimento. Entre humanos, se oprime para acumular riquezas e manter poder.
A cidade natal de Balram faz dele um homem doce enquanto serviçal e brutalizado quando descartado. O trabalho que deveria dignificá-lo o torna assexuado porque ele se anula para viver a vida dos patrões e o esforço que despende na luta para alcançar honestamente seus objetivos o desumanizam.
São muitos os revezes na vida de Balram, mas não há como fugir de uma questão relevante: temos direito de criticar ausência de ética, se não vivemos a realidade indiana nem sofremos os dramas de Balram? Não dá para flexibilizar princípios incontornáveis e ser honesto de vez em quando. Em ética não cabem dois pesos e duas medidas. Não importa se o sujeito é capitalista opressor, ou pobre oprimido.
* Disponível na Netflix
João Nunes é jornalista e crítico de cinema











