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Home Colunistas

“O Acontecimento” e o atualíssimo tema do aborto – por João Nunes

João Nunes Por João Nunes
7 de julho de 2022
em Colunistas
Tempo de leitura: 3 mins
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“O Acontecimento” e o atualíssimo tema do aborto – por João Nunes

Anne (Anamaria Vartolomei) em “O Acontecimento”: boa aluna em crise ante a possibilidade de ter filho ou seguir carreira profissional Foto: Divulgação

Na França, de 1963, abortar era considerado crime, como mostra “O Acontecimento” (L’Evénement, França, 2021, 100 min.,16 anos), da cineasta francesa de origem libanesa, Audrey Diwan. Hoje, no país governado por Emmanuel Macron, permite-se o procedimento desde que a gravidez não ultrapasse 14 semanas.

A relevância do tema está no fato de a história se passar cerca de 60 anos atrás e continuar atualíssimo: no direito (caso da juíza que descumpriu a lei que o permite em caso de estupro), na política (nas manifestações de candidatos nas eleições de outubro) e no cotidiano de todos nós porque, afinal, ele está conectado com a vida.

 

Vencedor do Leão de Ouro, em 2021, em Veneza, um dos mais importantes festivais de cinema do mundo, o filme se baseia no livro homônimo da escritora francesa, Annie Ernaux.

 

 

Fica evidente, desde o início, a proposta da direção, a partir do roteiro adaptado por ela (com Marcia Romano), em colocar Anne (Anamaria Vartolomei), sempre, em primeiro plano, a fim de mostrá-la sob todos os ângulos, ações e situações.

Claro, é a protagonista, mas há outro propósito: a diretora quer chamar a atenção do espectador para a personagem que tem alma e tem corpo. A constatação parece óbvia, mas não.

Alma, refere-se à pessoa preparada intelectualmente (em aula da universidade responde com classe a arguição a respeito de um poema), que tem desejos (faz sexo com sujeito que mal conheceu), é inteligente (estuda consciente do que pretende ser na vida), tem desígnios próprios (ninguém lhe impõe decisões) e não se faz de vítima (quando precisa de dinheiro, vende objetos pessoais).

E, corpo, a representação física dessa alma, mas não com a intenção de explorá-lo eroticamente; porém, a fim ressaltá-lo como ser humano nas mesmas condições que sempre foram dadas ao ser masculino, ou seja, a de dona do próprio corpo.

Assim, vemos Anne desnuda no banho, na relação sexual e na consulta com o médico Ravinsky (Fabricio Rongione) e, naturalmente, vestida, nas aulas da universidade, com os pais, com as amigas, dançando, viajando. Trata-se de um corpo livre (que vive de poucos prazeres e muitas dores) capacitado para dizer sim ou não, sempre que esteja em sintonia com as próprias vontades.

 

A protagonista ao lado do parceiro Maxime (Julien Frison): corpo que vive de poucos prazeres e muitas dores Foto: Divulgação

Só que para alcançar a plena liberdade há um preço: ficar grávida e não obter apoio do parceiro Maxime (Julien Frison), encarar tarefa de optar entre ter o filho e seguir carreira profissional, e guardar o segredo que não pode ser compartilhado com colegas, professor e pais. Liberdade, portanto, como sinônimo de solidão – sentimento manifestado por ela própria.

Para isso, Anne mune-se de determinação. Contudo, na hora mais dramática, entrega-se à fragilidade, conta com ajuda de alguém, busca suporte nos pais simplórios, que, mesmo pouco afáveis e distantes, são capazes de arrancar o único sorriso dela – instante delicado para o qual cabe música doce a encorajadora.

E faz sentido citar a referida música (em história narrada de forma seca e silenciosa e sem apoio de melodias que costumam embalar sonhos) porque a precisa trilha de Evgueni Galperine, Sacha Galperine remete a filmes de terror: sons rascantes, duros e tensos.

Não é fácil encarar o aborto. Nem mesmo falar sobre ele e expor opiniões ou estabelecer verdades irremovíveis – por acaso, alguém se interessa por nossa opinião, seja ela qual for?

Religiosos dirão que são contra; pessoas iguais a Anne, que são um tanto mais arejadas, se colocarão a favor. E não se pode esquecer a ética. Tampouco os sentimentos que vão além de princípios racionais – aqueles conectados com a espiritualidade.

 

No consultório do médico Ravinsky (Fabricio Rongione), Anne busca solução para o drama Foto: Divulgação

O que “O Acontecimento” cumpre com segurança é a capacidade da direção em compor essa narrativa com força capaz de mobilizar nossos conceitos e teorias, e nos colocar emocionalmente conectados com a experiência de Anne.

Capacidade na concepção, nas escolhas e na forma de apresentá-las com fundamentos técnicos que complementam convenientemente a narrativa, como a bela edição de Géraldine Mangenot e a fotografia austera de Laurent Tangy. E, antes de tudo, coragem para defender a liberdade humana, seja ela do homem ou a da mulher.

 

O filme estreia nesta quinta-feira, dia 7 de julho, nos cinemas

João Nunes é jornalista e crítico de cinema

 

Tags: abortoAnamaria VartolomeiAnnie ErnauxAudrey Diwancinemacomportamentointerrupção da gravidezJoão NunesLeão de OurolegalidadeliberdademulherO AcontecimentoreligiãoSala de CinemaVeneza
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