Um cenário que há poucos anos parecia improvável volta a assustar a humanidade. O fantasma de uma guerra nuclear, que pode destruir tudo o que conhecemos como vida neste belo planeta, o único que podemos habitar.
Principal organização de estudos sobre armamentos, o sueco SIPRI (de Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo) acaba de publicar seu Anuário, onde estão informações que mostram a gravidade do que estamos passando, com a guerra entre Israel e Irã e a recente invasão por parte dos Estados Unidos, atacando instalações nucleares iranianas.
“A era de reduções no número de armas nucleares no mundo, que durou desde o fim da Guerra Fria, está chegando ao fim”, alertou, no momento de lançamento do Anuário, Hans M. Kristensen, membro sênior associado do Programa de Armas de Destruição em Massa do SIPRI e diretor do Projeto de Informação Nuclear da Federação de Cientistas Americanos (FAS).
“Em vez disso, vemos uma tendência clara de aumento dos arsenais nucleares, retórica nuclear aguçada e abandono dos acordos de controle de armas”, advertiu.
O Anuário 2025 do SIPRI mostra que, do “inventário global total de cerca de 12.241 ogivas em janeiro de 2025, cerca de 9614 estavam em estoques militares para uso potencial. Estima-se que 3912 dessas ogivas foram implantadas com mísseis e aeronaves e o restante estava em armazenamento central. Cerca de 2100 das ogivas implantadas foram mantidas em estado de alerta operacional máximo em mísseis balísticos. Quase todas essas ogivas pertenciam à Rússia ou aos EUA, mas a China agora pode manter algumas ogivas em mísseis em tempos de paz”.
Desde o fim da Guerra Fria, no início da década de 1990, nota o SIPRI, o “desmantelamento gradual de ogivas aposentadas pela Rússia e pelos EUA normalmente superou a implantação de novas ogivas, resultando em uma diminuição geral ano a ano no estoque global de armas nucleares.
É provável que essa tendência seja revertida nos próximos anos, à medida que o ritmo de desmantelamento está diminuindo, enquanto a implantação de novas armas nucleares está se acelerando”, alerta a organização sueca.
A situação é clara e gravíssima. Os Senhores da Guerra voltaram com tudo, gastando orçamentos militares cada vez maiores e recordes. Dinheiro que daria para financiar a transição climática, dos combustíveis fósseis para fontes de fato renováveis, e também para acabar com a pobreza.
Martin Luther King, no discurso que proferiu quando recebeu o Prêmio Nobel da Paz, em 1964, disse que “não há nada de novo com a pobreza. O que é novo, no entanto, é que temos os recursos para nos livrarmos dela”.
É um fato. Com os recursos atuais, daria para eliminar a pobreza e a fome no mundo. Mas os Senhores da Guerra não querem, não deixam. Eles querem continuar lucrando com a morte.
Segundo o SIPRI, os gastos com armas em 2024 foram de 2,7 trilhões de dólares, 9,4% a mais do que no ano anterior. O maior aumento aconteceu na Europa, com 83%, claramente em função da Guerra na Ucrânia. A guerra Israel e Irã certamente levará a novos aumentos, que figurarão no próximo Anuário do SIPRI.
O tema da paz, da necessidade de conversão de orçamentos bélicos para investimentos em energias renováveis, necessariamente deveria fazer parte da agenda da próxima Conferência do Clima, a COP-30 de novembro em Belém. Provavelmente não fará.
O planeta belo, a nossa Terra comum de todos, precisaria de uma chance. Nos últimos dias, ela ficou bem menor. Mas nesse espaço temos insistido. Apenas a cidadania global mobilizada e ativa pode deter a escalada de destruição.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com











