Hoje, 5 de junho, é celebrado mais um Dia Mundial do Meio Ambiente. Atualmente a data é comemorada em praticamente todas as cidades do planeta, com debates, plantios de árvores, limpeza de rios ou outra atividade. O Meio Ambiente, enfim, se tornou o que agora se denomina como mainstream, um tema praticamente hegemônico, do qual todo mundo fala. Isso de qualquer forma é bom, mas nem sempre foi assim.
A data foi estabelecida pela ONU em 5 de junho de 1972, no âmbito da Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, em Estocolmo, Suécia. Foi a primeira grande conferência das Nações Unidas sobre a temática ambiental, que na época ganhava cada vez mais força, em decorrência da série de desastres que vinha ocorrendo no planeta.
Dez anos antes, um grande alerta sobre a degradação ambiental planetária já havia sido dado pela cientista norte-americana Rachel Carson, no seu livro “Primavera Silenciosa”. Foi um claro aviso sobre a deterioração da natureza, no caso, entre outros, pelo efeito de agrotóxicos no desaparecimento de espécies.
A partir de 1972, o tema ambiental se tornou parte da agenda dos governos, até que em 1992 aconteceu o maior evento nessa área, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92, no Rio de Janeiro. Foi a Conferência que consolidou a expressão desenvolvimento sustentável e que lançou para sempre, e fora dos círculos acadêmicos, a discussão sobre o aquecimento global e a erosão da biodiversidade.
Enfim, houve um avanço em termos de colocar a temática ambiental nas discussões governamentais e das empresas, ampliando as preocupações que já vinham sendo expressas pelo movimento ambientalista e por cientistas. Entretanto, mesmo assim demorou para o tema virar o tal de mainstream.
Pelo contrário, durante muito tempo os defensores do meio ambiente, sobretudo em países em desenvolvimento como o Brasil, foram chamados de “ecochatos”, particularmente por grupos conservadores, de direita, mas também por parte da própria esquerda tradicional.
Entretanto, a temática se tornou irreversível, e isso se deve às atitudes corajosas e pioneiras de muitos rebeldes, no plano internacional e também no Brasil. Rebeldes como os pioneiros da Greenpeace, grupo nascido no Canadá e que se espalhou pelo mundo em rápida velocidade, com denúncias sobre os testes nucleares nos oceanos e as mortes das baleias.
Mas, de fato, rebeldes também no Brasil, como Margaret Mee (1909-1988) que, no mesmo ano de 1962 de “Primavera Silenciosa”, fazia os primeiros alertas do que viu de destruição da natureza no país.
Formada em artes pela “St. Martin’s School of Art”, no “Centre School of Art”, e pela “Camberwell School of Art”, de Londres, a desenhista britânica tinha se radicado no Brasil a partir de 1952 e logo se apaixonou pela flora e fauna do seu novo país. Seriam várias expedições para registro em desenho da biodiversidade brasileira, em enorme contribuição para a ciência, e durante a segunda delas, em 1962, já documentou em seus diários a destruição das matas e os conflitos entre fazendeiros e povos indígenas que tinham suas terras ocupadas.
Quase ao mesmo tempo em que Margaret Mee fazia suas incursões pelo Brasil profundo e expunha suas inquietações com o processo de destruição da biodiversidade, outro artista plástico, o pintor nascido na Espanha Emilio Miguel Abellá, dava sua contribuição para despertar a consciência ambiental nos meios urbanos. Em setembro de 1973, ele circulou pelo centro da cidade de São Paulo com uma máscara contra gases. Era a denúncia da poluição atmosférica e este foi o ponto de partida do Movimento Arte e Pensamento Ecológico (MAPE), idealizado por Abellá e que emergiu em 1974.
Em 1978, primeiro ano de circulação da revista “Pensamento Ecológico”, a atriz e apresentadora de televisão Cacilda Lanuza concluía a peça “Verde que te quero verde, ou O Globo da Morte”, que apresentaria nos anos seguintes por todo país. Cacilda foi uma das primeiras atrizes brasileiras com engajamento total em questões socioambientais.

Pessoas, enfim, como Margaret Mee, Miguel Abellá e Cacilda Lanuza, vistas com estranheza pelo pensamento dominante em seu tempo, foram responsáveis por lançar a questão ambiental aos quatro ventos, semeando o futuro que hoje é o que vemos. Uma quase unanimidade no sentido de considerar preocupante a situação ambiental, mas na prática com uma devastação crescente e contínua.
Necessário, fundamental, assim, partir do discurso para a prática, dos belos documentos e planos oficiais para a chamada vontade política de fazer mesmo o que tem que ser feito, o que, geralmente, contraria alguns interesses particulares. Mas se o bem público não prevalecer, se a preocupação com os bens comuns não predominar, o que acontecerá será a proliferação de grandes tragédias como a que ainda não acabou no Rio Grande do Sul.
Há uma grande discussão hoje sobre se essas enchentes no Sul representarão, efetivamente, um ponto de inflexão no Brasil. Se poder público como um todo, entendendo poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, e também setor privado e sociedade em geral, vão estar de fato dispostos a construir um novo modelo de desenvolvimento, que considere a finitude e os limites da natureza, ou se continuarão prevalecendo os interesses corporativos e de alguns grupos partidários.
Porque as mudanças climáticas continuarão fazendo estragos, a menos que haja uma grande transformação no próprio estilo de vida que conhecemos. Porque a extinção da biodiversidade prosseguirá, afetando toda a teia da vida que nos garante a sobrevivência, se não houver novos jeitos de fazer e em especial de ser.
Uma rara notícia a comemorar, neste Dia Mundial do Meio Ambiente de 2024, é a eleição de Claudia Sheinbaum como a primeira mulher presidente do México. Uma cientista climática respeitada, liderando um dos principais países da América Latina.
Quem sabe com as mulheres em uma grande aliança continental, por exemplo com Marina Silva no Brasil, Francia Márquez na Colômbia e outras, não sairão ações mais efetivas de enfrentamento das mudanças climáticas do que aquelas conduzidas até agora majoritariamente por homens identificados com os interesses dos combustíveis fósseis?
Tomara que o espírito e a ousadia dos rebeldes pioneiros continuem inspirando as novas lideranças. Porque o planeta dá cada vez mais suas advertências em alto e bom som.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com











