Duas questões se colocam, de início, ante Amor, Sublime, Amor, consagrado, mas péssimo título em português para West Side Story (EUA, 2021, 2h40), de Steven Spielberg: por que, feito crianças, gostamos de ouvir as mesmas histórias e por que refilmar um clássico? Tentando responder a primeira: seria medo do novo? Melhor ouvir sobre tragédia antiga (continua trágica, mas sabemos onde toca e como reverbera em nós) do que a desconhecida, pois, sabe lá sobre quais sombras ela se assenta e como nos atinge.
A segunda é mais simples. Alguém com o currículo, cacife e competência de Spielberg pode se dar ao luxo de, aos 75 anos (a serem completados neste sábado, 18/12), conceber nova versão para o filme histórico adaptado do musical da Broadway e realizado por Robert Wise e Jerome Robbins, em 1961. Cacife e convicção de que poderia apresentar algo novo e de qualidade porque, antes de tudo, teria de fazer a releitura do filme – e não apenas refilmá-lo. E ele consegue.
Durante muito tempo, deve ter estudado o material disponível para esse, se supõe, acalentado sonho. Enquanto germinava ideias, pensava em qual seria o ponto base da estrutura da releitura.
Pode haver outras interpretações, mas é difícil não crer que ele tenha construído sua visão do filme a partir de imagens decisivas. A começar do efeito impactante que os escombros no bairro de Upper West Side provocam no espectador. Há, antes mesmo do cenário em si, as cores. Esmaecidas no início, acompanhando ritmo um tanto dispersivo da narrativa quando tudo, ainda, parece indefinido. E há um tom evocativo nessas imagens relembrando que a trama acontece na Nova York de 1957.
Então nos damos conta que a fotografia de Janusz Kaminski é toque da releitura de Spielberg; pela textura das cores o diretor define sobre como olhará o filme. E revemos nosso conceito de “dispersivo” porque a concepção começa a se encorpar até atingir o ápice.

Na cena do bailado no cruzamento de duas avenidas da grande cidade cheia de gente, carros dos anos 1950, e ao som de ‘America’, acontece uma explosão de cores (com leve acento no amarelo), figurino de época, dança exuberante, alegria por todos os poros. Na cena mais bonita do filme, a fotografia brilha, a fotografia reina.
Claro que a bela trilha de Leonard Bernstein foi mantida e não ficou restrita ao tempo. Canções como a citada e dançável ‘America’, ou a triste ‘Somewhere’ ou a romântica ‘Maria’ (lindamente cantada pelo protagonista Tony, interpretado por Ansel Elgort), assim como é linda e talentosa cantora a partner dele, Maria, vivida por Rachel Zegler, cantando ‘Tonight’.
E, se na tragédia de Shakespeare, base da história, são ricas as famílias de Romeu e de Julieta que brigam por status e proeminência, em ‘West Side Story’ o fundamento é a convivência tumultuada da diversidade: brancos norte-americanos da gangue Jets em luta contra os Sharks, descendentes ou porto-riquenhos de pele negra ou com reflexos da miscigenação.

Quais são os motivos das constantes brigas que soldados gastam enorme energia para conter? Preconceito racial e social – porque, além de tudo, porto-riquenhos vivem em espécie de favela (melhores que as nossas, diga-se), casas que se amontoam umas sobre as outras e sobre cujas varandas espalham roupas secando ao sol.
São essas casas modestas o cenário da, também, belíssima sequência do balcão, reencontro depois do baile onde se conhecem e na qual, como perfeitos Romeu e Julieta, Tony e Maria fazem juras de amor eterno. A cena antecede o canto de Tony, entoando ‘Maria’, enquanto avança em meio ao cortiço à procura da musa.

Está contada a velha história que com insistência queremos ouvir. Mortes, tragédia, violência. O palco onde se dá o desfecho é outro momento de esplendor da fotografia formando desenhos de cores ao mesmo tempo sinistras e belas.
O filme busca a diversidade, um dos bens mais preciosos da humanidade, mas enfrenta barreiras. Idiomas (espanhol e inglês) se estrilam, preconceitos tentam impedir união de brancos e negros, classes sociais se digladiam.
Como não gostar da velha história e até se surpreender com ela? Surpreender com a releitura, a atualização e a contextualização que Steven Spielberg faz de ‘West Side Story’ aos não menos conturbados dias de hoje.
O filme está em cartaz na Rede Cinemark do Shopping Iguatemi Campinas e na Rede Cinépolis do Shopping Galleria Campinas
João Nunes é jornalista e crítico de cinema











