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Home Opinião

Artigo: Minha Jangada de Velas – por Rubem Costa (III – final)

Redação Por Redação
24 de abril de 2026
em Opinião
Tempo de leitura: 24 mins
A A
Artigo: Minha Jangada de Velas – por Rubem Costa (III – final)

Foto: Freepik

 

Tremelicando nos trilhos, o trenzinho sofrido, nas curvas gingando e arfando nas rampas, chegou, finalmente, fumarento e cansado, às terras do Amparo. Bufando. Quarenta e cinco longos quilômetros de estrada. Duas horas e meia de sacolejos no caminho de seis paradas, levando, no banco estreito da segunda classe, o espelho de minha ansiedade na inquietude de um futuro incerto.

Quando pus os pés na estação, paletó queimado por fagulha da “maria fumaça”, guardava ainda, cabriolando dentro de mim, angustiosas reflexões que os solavancos do vagão não amorteceram. Soma de lembranças, resumo da relampejante história de mim mesmo que, naquela hora, rodava aflita sobre os dormentes da velha Mogiana.

Eu, ai de mim, sem eira, pobre de beira, em quatro anos, passara, cometa, por três ansiosos momentos de conflitos e desencontros. Em primeiro, me entrevi quase menino inexperto, na ‘deslumbrância’ da adolescência, aos dezessete anos, condenado à morte pela voz ríspida do médico que diagnosticou, cruenta, a tísica nos meus pulmões furados.

Aspergido, entanto, pelo milagre da Providência que derrubou a sentença fatal do esculápio indiferente, suplanto a tuberculose que me afastou da escola militar e ingresso num educandário de ensino profissional com o intuito apenas de não perder um ano de estudo, sem que tivesse tido, até então, qualquer aparente tendência para magistério.

Salto, em seguida, quando menos esperava, da condição de mero normalista para as sofridas, mas amadas, noites de jornalismo mal pago, até ser surpreendentemente guindado, sem nada pedir, a cargo de relevo numa multinacional e cair, daí a pouco, já casado, à dura condição de modesto angariador de anúncios numa cidade que nem ao menos conhecia.

Amparo. Pequena cidade que começava na boca da estação e terminava ali, atrás do bambual, às margens do Camanducaia. Gare de passageiros e cargas. Diria melhor, uma estaçãozinha, provinda de outro século, por onde, com uma pá de gente e algumas sacas de café, o trenzinho, escorregando na plataforma, passava solfejando no fungar choroso a glória perdida de um passado recente.

E assim, rolando na canção dos trilhos, o “vou não vou” do vapor resfolegante me trouxe ao espírito uma musiquinha ingênua que, ainda na adolescência, fabriquei brincando:

No mundo do gira-mundo,
Todo mundo vai girando.
Gira o filho, gira o pai,
Gira a mãe que está em casa.

No meio de tantos giras
Só não gira quem no mundo,
Quem no mundo já morreu.

Estava, ainda a me distrair com o infantil jogo de palavra, repetindo interiormente os últimos versos, quando casquinando aos meus ouvidos com uma risadinha marota, a jangada, pulando das águas virtuais, me espicaçou:

“Você disse que só não gira quem no mundo já morreu?

Que afirmação besta é essa!  Não sabe que entre o céu e a terra, muita coisa há que ignora a nossa vã filosofia?

Zanguei-me:

-Besta é você, barquinha sem graça, com esse plágio de Shakespeare que qualquer um sabe de cor. Verso é verso. Vida é vida. Morto é morto.

-Concordo.  Morto é morto, mas no corpo, na matéria.

E o espírito? Quem lhe disse que morre? Quem pode dizer, portanto, que não se encontra também na esfera do gira-mundo? Quem garante que você, que está agora todo emproado nesse rompante, não chegou aqui rodopiando pelo etéreo desde os tempos dos faraós do Egito?

-Pense bem – insistiu ela, em segredo – porque o grande bruxo de quem, jangada, sou filha, também é uma roda que gira.

Depois do estranho diálogo, calei-me, porque o grande bruxo do qual falava a montaria, cego e inexorável, nascido da Noite e do Caos, arrasta alguns aos infernos, mas se transforma às vezes numa coroa recamada de estrelas, iluminando os céus. Os gregos o chamavam de Destino, guia dos vários caminhos, que conhece o fim antes mesmo de escrever o começo.

Entretanto, como naquele instante estava chegando a um novo porto, desisti da polêmica e saí da gare, arrastando uma grande mala de papelão recheada de discos.  Pesavam mais que a soma de todos os pecados, porém deles eu precisava para alimentar o programa musical de inauguração da minha rádio-janela, que nada mais era senão uma miniatura de empresa cujo patrimônio se restringia a um amplificador de som com dois microfones e quatro caixas acústicas.

Tinha o cuidado de evitar que a mala caísse, posto que, se me escorregasse das mãos, com certeza, a um simples toque, os bolachões de ebonite se espatifariam na calçada. No largo, em frente à estação, ao meio fio, quatro carros de praça com capota de lona e lataria negra (naquele tempo ainda não se falava em táxi) esperavam por eventuais passageiros.

Os choferes de boné de pala dura na testa agenciavam a corrida empertigados junto ao volante.  Calhambeques da década de vinte. Um chevrolet “cabeça de cavalo”, dois fordes 29 e um de   1927, de bigode – (Vocês podem estranhar a expressão, mas era assim chamado, porque, no ano em foi construído, ainda não se divulgara o câmbio de marcha. A aceleração era regulada por duas hastes fixadas em sentido oposto na coluna de sustentação do volante, dando a imagem do ornamento facial masculino, tipo mexicano).

O peso da mala, como sofridamente disse, desarticulava-me a munheca. Olhei guloso para os quatro monstrinhos de rodas. Calculei o dinheiro que tinha no bolso: uma nota de vinte. Se pegasse o carro, iria, no mínimo, pagar três mil réis pela corrida, com perigo de desfalcar meu caixa que mal dava para almoço e pernoite de dois dias na cidade. Uma ameaça ao estômago. Desisti da idéia e fui-me arrastando rua acima com a malvada mala que me distendia os braços, ora um, ora outro, com a esperança de chegar logo ao marco zero da cidade, a praça da matriz.

Todavia, enquanto, meio tropeçando, gastava a sola dos sapatos, amenizando o peso dos bolachões, veio-me à lembrança a história engraçada de um outro fordinho 27, também preto, que “seu” Artur, dono do armazém de secos e molhados, onde meu pai fazia as compras de mês, retirara ainda encaixotado da alfândega.

Era um velhote, aí pela casa dos setenta, mas muito amigo lá de casa. Viúvo, com o filho Alceu estudando medicina no Rio, vivia solitariamente, tendo por única diversão passear no fordeco que, num rasgo de coragem, aprendera dirigir.

Certa ocasião, eu tinha talvez nove anos, nos convidou para irmos na gaiolinha à Indaiatuba. Viagem de vinte e cinco quilômetros. Escolheu um domingo de bastante sol, porque, se chovesse, a estrada de terra viraria um lamaçal, onde o carro com certeza, sem corrente nos pneus, ficaria atolado.
Feitos os preparativos com todo cuidado, saímos de manhãzinha.

No meio do caminho, entanto, havia que enfrentar um obstáculo, o chamado morro vermelho, onde a estrada sofria vertiginosa depressão à moda de montanha russa. Ao fim de uma reta, mergulhava de repente num declive quase vertical de uns cinqüenta metros de comprimento quando, lá em baixo, num ângulo de quarenta cinco graus, enveredava por um aclive de outros tantos metros até o cume.

O fordinho gemia carregando: “seu” Artur, meu pai, minha mãe, a mim e meu irmão caçula de três anos. Ao chegarmos próximo à ponta do valo, o motorista parou e anunciou. Os homens, no caso, meu pai e eu, deveriam apear e esperar lá em baixo, na curva de ascensão, a chegada do traste rodante que ia descer acelerado em velocidade máxima, para, quando na subida perdesse força, empurrá-lo, pela traseira, morro a cima.

Desta estória, guardada no baú da infância, eu me lembrei exatamente por causa da roda do destino. Eis que, aos nove anos, me apeei do fordeco para pequenino, correndo morro a baixo até o fundo do tobogã, ajudá-lo a subir ao pico da ladeira. Entanto, agora, diante de meus sapatos furados, se negava, o irmão ingrato, a levar-me rua além em busca de uma esperança.

Inobstante, mesmo com alma apertada, repudiando o fordinho infiel, terminei por me comover de novo, ao recordar com ternura, mais uma vez, do bom velhinho. (do “seu” Artur, é claro, não do calhambeque) que, vivendo sozinho, já passados alguns anos de viuvez, um dia ficou muito doente, a ponto de receber extrema unção.

Foi o padre quem avisou que ele estava nas últimas. Isto é, mandou recado, já que em casa de protestantes não entrava.  Imediatamente, ungidos de piedade, meu pai e minha mãe, me levando a tiracolo, foram visitá-lo. Magrinho, olhos encavados, sumido no fundo da cama, era a imagem da morte refletida nos lençóis. Queixou-se com voz mal ouvida que daquela não escapava.

Minha mãe, coração de santa, contendo as lágrimas, para consolá-lo, mentiu piedosamente:

-Deixa estar, “seu” Artur, não se aflija, o senhor logo se recupera, fica bom e ainda vai ao meu enterro.

-Qual nada, dona Olívia, – disse ele com desesperança – – esse prazer eu não vou ter.

Pois, teve.  Sarou. E, anos depois, lépido, ajudou a segurar a alça do caixão de minha mãe.

Grande bruxo, cego, inexorável, Destino!

No Amparo

A cidade guardava ainda a herança feudal dos antigos barões do café. Mal conservadas, casas oitocentistas se espalhavam, aqui e acolá, por ruas estreitas, onde se lia a história da débâcle de 1928, quando na queima dos cafezais, se reduziu a cinzas o império dos coronéis que, segundo a lenda, acendiam charutos havaneses com notas de quinhentos mil réis nos cabarés de Paris, tomando champanhe no “Folies Bergere” ou no “can-can” frenético do “Moulin Rouge.”

Na sociedade em mutação, antigas e solenes estirpes guardavam avaramente na arca das tradições mais caras o orgulho ancestral de paulistas quatrocentões, enquanto, ao lado, em humildade campesina, uma população burguesa de funcionários públicos, artesãos e uns poucos operários de pequena indústria, caminhava sob o olhar desconfiado da nobreza esfolada.

O forasteiro que chegava em busca de trabalho era visto com reserva e cautela.  Precaução social da abelha manda-saia que se fecha e morre na porta da colmeia para impedir a entrada da abelha limão. Mas não era por maldade, não.

Mero orgulho de rei sem trono. Apenas o esforço para manter em pé as glórias do passado próximo que se diluíam nas trilhas malsinadas da fazenda grande. Esforço de uma sociedade que escrevia na lira da saudade a sua própria epopéia, do mesmo modo que Homero, com a “Ilíada” enalteceu no ocaso a Grécia humilhada, e Camões, nos “Lusíadas”, cantou as grandezas de Portugal na hora da decadência. Era um sopro de agonia. O canto de cisne no instante da despedida, a elegia de mundo em ruína.

Por isso, não era por maldade, repito, que assim acontecia. Somente uma defesa, o temor de perder o estato social pela invasão forasteira que, aos ventos de outras idéias, chegava com a ameaça de novos valores.

Tanto que, preservada a tradição, não se punha obstáculo ao trabalho. O campo de atividades, pela dimensão da cidade, onze mil moradores, era restrito, porém quem quisesse se aventurar que o fizesse à sua conta e risco, sem qualquer hostilidade, desde que não invadisse os lindes sociais do clã sagrado. O que havia era o orgulho bairrista de uma terra quase estéril, onde para colher, tinha o imigrante de muito cavar. E isso eu aprendi logo nas primeiras horas.

Casa Celeste

Pensando bem, não foi nada de bom gosto a sigla que resultou da denominação que dei à minha minúscula empresa – SAFA – Serviço de Alto-falantes Amparense. Se proporcionou motivo para alguma gozação, trouxe, entretanto, uma vantagem, porque com a debochada brincadeira se foi divulgando o nome entre os ouvintes, despertando o interesse dos anunciantes.

Pois bem, certo dia em que caminhava na senda da sobrevivência, entrei, em busca de propaganda, numa casa de duas portas que ostentava no frontispício uma tabuleta: – Casa Celeste.

Atrás do balcão de pinho, entre linhas e botões, uma moça, chegada aos trinta anos aproximadamente, arrumava uns panos para colocar na prateleira. Não eram muitos.

Algumas peças coloridas de seda que se misturavam com umas chitas estampadas. Olhou-me meio surpresa, como a perguntar a si mesma que diabo me levava ali, naquele instante, a uma loja de artigos femininos quase sem estoque. Mirou-me indagadoramente e sorriu, num esgar de canto de lábios, quando lhe disse a que vinha, que era dono do SAFA. Ironizou, perguntando-me, em um trocadilho azedo, se viera a Amparo para morrer de fome.

– “Por que não se “safa” logo daqui rapaz?”

Zanguei-me com o triquetisque infame, dito em tom que me pareceu de deboche.

Como andava com o coração apertado, infantilmente respondi de forma grosseira que nem tudo era o que aparentava, tanto que celeste, em vez de divino, podia também ser o caminho do inferno, principalmente para balzaquianas que não tinham coragem de enfrentar os embates da vida.

Na minha indignação, saí esbravejando, decidido a não mais entrar na pífia loja, nem mesmo que fosse para um funeral. Bravata tola e desconexa que, num instante de reflexão, me fez sentir ridículo e arrependido, a ponto de envergonhado quase voltar para pedir desculpas.

Cheguei a ensaiar mesmo umas palavras amenas, porém o orgulho de moço me fez retroceder. Para me consolar, repeti o surrado provérbio dos valentões frustrados: – “quem fala o que quer, ouve o que não quer.”

Desapontado, permaneci ao largo, até que em uma manhã, passando pela rua, tive um gosto amargo de arrependimento na alma. As portas da pequenina loja estavam fechadas e a tabuleta que em cores anunciava a Casa Celeste era arrancada a marteladas. Com a intuição batendo de pronto, arranhando-me o espírito, perguntei ao “seu” Flores, que ajudava na operação, o que havia acontecido.

-Doença?

O velho, quase chorando, mal respondeu.

Pior, bem pior!

Senti um fragor bárbaro de remorso a me arrebentar a alma.

Só então percebi que, quando a moça me perguntara se viera a Amparo para morrer de fome, não me estava agredindo, mas lançando aos céus o suplicante grito de sua própria angústia.

Retirei-me sob o peso enorme da fatalidade, sentindo a sombra do bruxo inexorável que, cego, traça no escuro o rumo das almas que aportam na dor.

No vagalhão das ondas, Celeste, apenas Celeste, arrastada para mundos ignotos. Ninguém sabe, ninguém viu.

Era um momento difícil. O mundo estava em guerra. O eco das batalhas que explodiam na velha Europa caminhava pelas ondas artesianas, reboava nos rádios e se estampava alucinante nas folhas dos jornais. A incerteza e a dúvida campeavam em torno do nosso destino. Do destino de uma nação que não sabia bem ao certo para que lado os ventos de uma ditadura a iriam levar na conflagração de ideais em luta.

Entretanto, salvo para alguns espíritos inquietos, a vida na província continuava na antiga paz do quartel de Abranches. A rotina era a mesma, como as mesmas eram as tradições, as verdades, as hipocrisias e as crenças. Havia histórias, silenciosas histórias que se iam escrevendo no interior de cada um, dos que não ouviam o crepitar das batalhas do mundo, mas guardavam na canastra de sua indiferença o preconceito e a prevenção colonial de muitas gerações.

Belino e Zenuno

Vizinhos, moravam na mesma rua e tinham a mesma profissão. Seria muita a coincidência, até porque a aptidão para o trabalho era igual, se não fosse a diversidade de tendências que os separava a partir do instante em que da soleira do trabalho punham os pés porta à fora para a rua.

Enquanto às voltas com os alfarrábios do destino alheio, se punham no interior dos cartórios com inteireza “sans paier et sans reproche” como falava, então, a nobreza galicista provinda da velha escola parisiense.

Eram ambos realmente uma só figura de escrivão sem falhas e sem censura. Entretanto, ao voltar para casa, libertos em seus próprios passos, a vocação caminhava por ruas diferentes.

Belino, rosto alegre iluminado pelo sol da cortesia, saudava em cada esquina a todos que passavam. Zenuno, rosto fechado, refletia em cada passo a luz da tarde reverberada nos vitrais das sacristias.

Nos dias comuns, vestiam igualmente terno, paletó e gravata, falavam com o mesmo juiz, conversavam com os mesmos advogados, cuidavam das intimações com os mesmos meirinhos.

Belino aturava Zé Fumaça e dava uma esmola ao bêbado que sorria. Zenuno, mesquinho, passava ao largo, resmungando contra o coitado e nem o olhava. Nos dias santos de guarda, Belino olhava da janela, respeitoso, a procissão que passava no largo da Matriz. Zenuno, irmão do Santíssimo, embiocado na opa negra, desfilava constrito, carregando o andor de nossa Senhora. Se Zé estivesse na esquina, fingia, desfiando o seu rosário, que não via.

Entre os dois, todavia, tão iguais na profissão, havia algo que intrigava, que fazia a gente ingênua indagar, sem resposta, por que eram tão separados no meio social. Era o que acontecia no Clube do baronato. Zenuno, mão de vaca, insensível ao sofrimento humano, era sempre reeleito presidente. Belino, tão cordial, generoso e honesto, nunca pôde ser admitido como sócio. Um enigma? Era.

Ou melhor, foi uma advinha e assim se conservou até o dia em que o bêbado Zé Fumaça gritou bem alto, no meio da Praça, dizendo que a chave do mistério – (se é que havia segredo) – estava na porta da Matriz: Zenuno – Irmão do Santíssimo – senhor de muitos filhos, era casado com os sacramentos e bênção da Santa Madre Igreja. Belino, incréu, pobre de filhos, era amigado.

Percevejos

Bichinhos malditos que os dicionários assim definem: “Insetos hemípteros cujo aparelho bucal é sugador.” Bandidos noturnos que de dia se escondem nas fendas dos muros e móveis, principalmente nas camas. Hematófagos e predadores. Com esse nome pretensioso se designa também essa corja infame que, sob o signo de Belzebu, se esconde da luz para só aparecer nas trevas. Sugadores de sangue, surgiram do caos com a vampiresca intuição dos campos férteis.

Sabem milenarmente que a tendência do homem, sempre que pode, é dormir sobre um estrado de madeira que vulgarmente se chama cama. É aí que se aperfeiçoa o seu vislumbre demoníaco. Instintivos, sabem a hora certa de atacar, quando o viandante cansado se deita para dormir. Exército bem ordenado, ataca em formação cerrada, esparramando-se, insaciável sobre o volume corpóreo que a labuta do dia lançou sonolento sobre o colchão.

Meu horror pelos safardanas começou precisamente no dia em que dei de cara com a Conceição. Tudo por causa da trama engendrada pelo João das Codornas, amigo de meu cunhado mais velho. Eram ambos caçadores e se conheceram no campo aberto, espingarda a tiracolo, perdigueiro ao lado, em busca de nhambus escondidos nas moitas. E especialmente, também, das codornas. Vem daí o apelido do João que, tendo uma sitioca lá pelas bandas de Betel, num domingo, convidou o Tércio para caçar em suas terras.

Esse meu cunhado que, nos primeiros anos de casado, era mais do que simples caçador de codornas do campo (gostava mais de caçar as da cidade) entrava, por isso mesmo, de quando em quando, em rota de colisão com minha irmã. Quando nasci, Ciça já tinha quinze anos. Praticamente me serviu de ama seca, ajudando nas coisas da casa, enquanto minha mãe cuidava da administração da lenhadora.

Consequentemente, pelo longo tempo que me carregou ao colo, dedicava-me especial carinho. Esperto, Tércio se aproveitava dessa favorável circunstância, me convertendo em para-choque das contendas. Era só as divergências começarem e lá ia eu passear com ele. Aos três anos de idade fui até parar num campo de futebol para assistir a um jogo do Guarani com o Fluminense do Rio de Janeiro. Assim que retornamos, a paz voltou a reinar. Dessa forma, quando me convidou para ir ao sítio do João, logo desconfiei, aos oito anos de idade, que as coisas não andavam bem pelo seu lado.

Fomos de caminhão. Desta vez, todavia, por obra do divino, minha irmã foi junto, protegida na cabine da tranqueira andante. Tércio e eu íamos em pé atrás da boleia, uma carroceria rústica de tábuas desconjuntadas. Na estrada de terra, enquanto não chegávamos à sitioca, navegamos num mar de poeira. E foi assim sujos que a Conceição nos recebeu. Preta retinta, vestido de chita estampada, na alegria matuta dos velhos tempos já me fez festa, passando a mão encardida na minha cabeça empoeirada. Não gostei do cheiro.

Mas educado, com um sorriso forçado, fui me apeando, indo sentar-me de baixo da mangueira, enquanto Ciça se acomodava, como podia, na casa de pau a pique. Os homens, atrelando as espingardas, conferiam os cartuchos ao tempo em que chamavam os perdigueiros para a jornada que começava. Às tantas, véspera do meio dia, ao passo em que minha irmã tinha ido à horta apanhar verduras, eu zanzava pelo terreiro e Conceição preparava o almoço.

A cozinha, na verdade, era um barracão sem paredes coberto de zinco. Indiferente à fumaceira do fogão de lenha, a cozinheira afanosamente envolvia em temperos uma grande posta de carne. Vinagre, sal, salsinha, coentro e folha de louro formavam com o azeite de algodão uma pasta meio pegajosa que cobria a peça de alcatra.

Curioso, estava observando a operação, quando, assustado, presenciei uma cena para mim dantesca. Conceição, com as mãos enlambuzadas de óleo, levanta gloriosamente o naco de carne vermelha empastadado pelo tempero semilíquido que lhe escorria pelos braços. Examina-o com o olhar cúpido das vestais de Roma. Querendo saber se a iguaria estava a bom gosto, abre a boca desdentada, estira uma enorme língua pantagruélica para, misturando a baba e o molho, lamber de norte a sul a posta que seria o nosso almoço.

Engulhei. Sensação de imenso nojo se apoderou de mim. Turvou-me a vista. Conceição vendo-me cambalear, correu a meu encontro, segurando-me nos seus braços fortes. Ao me agarrar, senti o cheiro do dianho no nariz. O azedume do vinagre ordinário misturado com a catinga do sovaco arrebentou-me o olfato. Desprendi-me de seus braços e corri desesperado para o poço em busca de água fresca. O balde estava vazio. Desenrolei a corda do sarilho que desceu rápido. Puxei com força a roldana na esperança do liquido ansiado. Mas, diante do refrigério que chegava na lata cheia, vomitei de uma vez. Quando o balde pesado de água chegou ao topo da cisterna, uma barata de casa preta boiava na piscina.

Repugnado, estômago revolto, pensei que ia morrer, sem imaginar que, por trama dos hemípteros hematófagos, o pior ainda estava por acontecer.
Ao chegarem para o almoço, com o embornal cheio de codornas, nhambus e rolinhas, Tércio e João, espantados, me viram tiritando, sentado num banquinho ao lado de Ciça, à sombra da mangueira. Minha irmã aflita não sabia o que fazer, já que me negava até a tomar água.

No almoço, João das Codornas quis me dar um bife que, chorando, recusei. A final, com muito jeito e paciência conseguiram me fazer engolir um pouco de arroz. Acalentado pela voz calma de minha irmã, dormitei ali mesmo num lençol montado sobre as folhas da árvore. Ao fim da tarde, o sol já descambando, ouvi a voz indagadora de Ciça a perguntar sobre o caminhão que demorava chegar para nos levar de volta à cidade.

Seriam talvez seis horas, quando o vulto do motorista, a pé, apareceu na porteira, informando que o trambolho quebrara e só ficaria pronto o conserto no dia seguinte. Desespero geral. Com fome e dor de cabeça, quis chorar, mas me contive. João das Codornas, com jeito apaziguador, ofereceu a única alternativa possível:

– “Tem nada, não, ninguém se afobe. A gente   arruma as camas e todo   mundo dorme com os anjos até amanhã”

Estômago nas costas, ardendo ainda de asco, inocentemente cheguei a acreditar que a noite me fosse trazer um pouco de sossego e paz. Dormir com os anjos.
Não contava, porém, com a milícia dos nauseabundos – os hemípteros sugadores que o vulgo, apertando as narinas e se coçando, alcunhou de percevejos.
Os iconoclastas estavam escondidos, até a hora em que me colocaram num catre, mal acomodado sobre um colchão de palha.   Assim que se apagaram as lamparinas, houve o toque de atacar. Não o ouvi, mas cheirei.

Sobre meu pescoço e minhas orelhas passaram a deslizar uns pontinhos fétidos que me cutucavam, espalhando uma comichão na pele. Passei a mão e peguei logo uns quatro ou cinco que, no escuro, caiam de volta à cama, retornando cinicamente em magote com mais força, como a zombar de mim. Vinham em bando, em colunas paralelas que, saindo das frestas do estrado de pau de cerca, se distribuíam estrategicamente, invadindo a área livre da pele e se infiltrando por baixo da roupa.

Apavorado, sem nada enxergar, gritei. Acorreram os dois cavalheiros e as duas damas. Acenderam as lamparinas. Tércio e Ciça, assustados. João das Codornas e a negra Conceição, absolutamente serenos, enquanto que eu me coçava.

– Não é nada, não, menino. Falta de costume. É só uns bichinhos que morde, mas não leva pedaço.

Olhei com ódio a cara risonha da negra que me olhava com ar de desprezo. Fiquei com vontade de dizer-lhe um nome feio. E o teria dito se não fosse Ciça novamente me apaziguar. Limparam-me as roupas, mataram os bichos que puderam e me deram uma xícara de chá. Porém, me neguei a voltar para cama. Como solução, colocaram uma colcha encardida sobre a mesa e um travesseiro de pena. Berrei que não queria ficar no escuro. Acenderam duas velas em torno da mesa. Com jeito, Ciça me convenceu que deveria dormir. Deitei-me de costas, estirado sobre a mesa, sem cobertas. As velas ao lado, tremulantes, me fizeram lembrar do dia em que fui ver a mãe do Armando, meu amigo, que morrera na semana passada.

Ali estirado, me senti como ela, rígida dentro do caixão. É verdade que estava só sobre o tampo, sem o invólucro de taboa. Entanto, as chamas bruxuleantes de escassa claridade projetavam minha sombra na parede. Dois círios acesos. Olhei para meus pés unidos e minhas mãos apertadas que, sem querer, cruzara ao peito. Apavorei-me mais uma vez. E no silêncio da casa, com os percevejos rondando por baixo do estrado, vislumbrei, velado pela luz trepidante, um cadáver vivo, um defuntinho de olhos abertos.

Não! Não iria ficar, ali, resignado à sanha hematófila dos sugadores a que se acomodara a passividade escrava da indolente Conceição.Nem pediria perdão de joelhos por ter gritado contra a imundície e o caos da noite. Saltei da mesa e fiquei andando descalço no chão batido até que, vencendo a madrugada, o sol chegasse para me iluminar, em pé.

Foi essa recordação dolorosa que me assaltou naquela noite de sábado, fevereiro de 42, em que, empurrado pelos ventos estranhos guardados na arca da vida, aportei pela vez primeira na velha cidade.

Ocupado com os trabalhos de organização do serviço, azafamara-me na montagem da sede, instalação da aparelhagem, obtenção de auxiliares e outras providências menores que permitissem a inauguração da rádio-janela no mesmo dia. Só às dez horas da noite, quando já encerrava a transmissão, é que me lembrei de que não havia jantado e nem sabia onde dormir. Enquanto comia um sanduíche no bar, refletia sobre os caraminguás que trazia no bolso. De qualquer forma, tinha de pesar os gastos. Os dois hotéis eram caros.

A pensão de dona Júlia, bem no centro, segundo me informaram, seria mais em conta. Nas aperturas dos mil réis, não tinha muita opção.Carregando a mala, já agora desembaraçada do peso dos discos, aflorei à porta da casa de pouso. Onze horas. A mulher estremunhada veio atender-me.

– “Tenho, sim senhor, um quarto vazio. Está limpinho, se quiser pode subir”.

Conferi o preço da dormida: três mil réis. Concordei, porque no hotel mais barato o pernoite era quatro ou cinco. E fui subindo os degraus que rangiam ameaçadoramente sob meus pés.  Na semi-escuridão, empurrei a porta do quarto que guinchou na dobradiça. Acendi a luz. Uma encardida colcha, que em outros tempos, deveria ter sido branca, cobria a cama de madeira trincada. Amarelou-se-me o entusiasmo.

Todavia, pensando no pouco dinheiro, já um tanto resignado, ia começar a desfazer a mala, quando olhando para o travesseiro pardacento, assombra-me um infernal exército de pontinhos pretos subindo alvoroçadamente em ordem de combate pela fronha. Estanquei. De novo, os imundos. O espírito caminhou da surpresa para o nojo. Do nojo para revolta. Um desaforo, cobrar pela imundície.

Uma iniqüidade maior do que a da mulher do João das Codornas. Pelo menos, Conceição se justificava com a tragédia de um ser amarrado a um passado de miséria, que afrontara por inocência amável a repugnância de um menino de oito anos. Em essência, reconheço agora passados tantos anos, que, em verdade, não me quis vilipendiar, fez o que na sua mente estreita lhe parecia bom: – “não é nada, não, menino. Só falta de costume”.

Mas esta, a D. Júlia da pensão, nem sequer podia valer-se da ignorância de uma escrava, porque, mulher urbana, afeita à higiene de uma cidade, com a desprezível cama, afrontava a dignidade do ser humano. Senti-me aviltado, um refugo social lançado à sanha dos percevejos sem a menor cerimônia, sob a cínica mercancia: “o quarto está limpinho” seguido de um desafio: “se quiser pode subir.”

Nunca antes me sentira tão humilhado. Infeliz criatura! Convidava-me a entrar num quarto e me abria uma latrina. Ter-lhe-ia sido muito mais decente fazer como o dr. Abbud, um dentista de meu tempo de infância em Campinas. Instalado numa casa da rua General Osório, bem no centro da cidade, colou em baixo de sua janela uma tabuleta enorme: -Extração de dentes – Com dor:  5$00 – Sem dor: 10$00. Eu a perdoaria com certeza, por ser mais honesto, se imitando o saca-dentes, me tivesse dito quando cheguei arrastando a mala:- cama com percevejo, 3$00 – sem percevejo 5$00.

Não seria eu, portanto, por mais difícil que fosse a precariedade da situação, que me iria submeter, por causa de uns poucos mil réis que faltavam no bolso, à suprema degradação de me dobrar ao fedor das pocilgas e me deixar sugar na passividade indecente dos derrotados. Que se acostumassem os ausentes de dignidade à fedentina, que ficassem, se fosse o caso, economizando tostões, podres de ricos – ou de miséria moral – porque não me acomodaria nunca à podridão dos sugadores.

Dei um grito de revolta, que veio do fundo de minha alma ferida. E, à mulher atônita que, ante a minha raiva, acorrera ao quarto, contendo a vontade de esbofeteá-la, disse sem remorso um palavrão. Escorregando atabalhoadamente pela escada, saí sem olhar para trás, estrondando a porta na cara do estafermo que ficou gritando que eu a machucara. Fui para a rua sentir no silêncio do jardim o perfume de um luar sem percevejos. E, sob a tepidez do sereno que caia tênue, à meia luz dos lampiões semi-apagados, no banco da praça quieta, de terno e gravata, com a mala por travesseiro, um homem dormiu em paz.

O Retrato

Limitada pela economia agrária e mal encaminhando numa incipiente indústria, a cidade estagnava nas velhas moradias de mais de cinquenta anos. Ninguém se aventurava a construir. Não havia casa para alugar. Levei mais de três meses para conseguir uma na rua Luiz Leite. Antiga, de assoalho de peroba rangente e paredes desbotadas, foi o melhor que pude arranjar. Essa circunstância acidental, entretanto, não seria, nem nunca foi, motivo de desgosto. O aborrecimento estava na vizinha ao lado.

Já no dia em que o caminhão descarregou os móveis à porta começou o seu matraquear. Exatamente na hora em que carregávamos para dentro as peças da sala de jantar, passava pela frente uma senhora de porte distinto que, vendo a cristaleira, parou, fazendo uma observação:

– “Interessante. Móveis iguaizinhos aos que comprei a semana passada em São Paulo!!

Ao que a vizinha que estava de plantão ao lado, logo retrucou:

– “E´ mas a senhora, d. Lurdes, esposa do diretor do Ginásio, pagou. Eles, uns pés-rapados com certeza compraram fiado e fugiram para cá com os trens”. –

Ida, que entrava carregando uma panela, ouviu e se revoltou. Aconselhei-lhe tivesse calma, já que, por sim ou por não, teríamos de conviver ao lado. A mulher, já nos haviam prevenido, era infernal. Casada com Sílvio, um funcionário público pau-d’água, se compensava da própria miséria farejando como hiena a vida dos outros. Quando não conseguia descobrir alguma podridão, inventava. O que, aliás, fazia quase sempre, refletindo os destroços da própria vida.

O marido bebia o que ganhava e vendia o pouco que tinha para beber. A ele atribuíam a anedota do bêbado que, curtido de pinga, sempre reclamava que a cachaça estava fraca. Um dia, o dono do botequim lhe serviu no copo álcool puro. Experimentou. Cuspiu no chão e desdenhoso criticou: “Eu bem sabia que, só pra me arreliar, iam pôr água na pinga.”

Acorrentada pela inquietude, projetava sobre o primeiro que aparecesse os seus tormentos. O bem que imaginasse existir fora de sua casa a machucava. No fundo, era uma infeliz em busca da infelicidade alheia. Falava por falar e se comprazia na maledicência. Era mais do que conhecida, entretanto muitos alegremente ajudavam a divulgar os boatos. Certa manhã, Margarida, a vizinha do lado direito, apareceu para contar que dona Marina estava espalhando que éramos como o Belino, isto é, amigados; que a aliança no dedo estava só para inglês ver. Imaginem, dizia, dois moleques mal saídos dos cueiros, casados?

– Digam pra outros, pra mim, não!

Ida ouviu a verrina, se aperreou, mas não discutiu, esperando a oportunidade para colocar a coisa nos eixos.
Esta surgiu alguns dias depois, quando a própria dona Marina, que quase todo dia aparecia para um dedo de prosa, contou, com dose de malícia, que estava completando quinze anos de casada.

Ida não se fez de rogada. Logo que a matraca se foi, saiu a comprar flores. Disse-me que ia levá-las à vizinha. Espantei-me, admirado de que fosse homenagear quem tanto mal falava. Sorriu. Retirou do álbum uma das fotos de nosso casamento. Justo aquela em que, de braços, aparecíamos saindo altar. Comecei a rir ao me lembrar da peripécia que foi obter o consentimento do padre italiano. Formado sob o signo da mais ferrenha tradição canônica, o bom do pároco queria conhecer tudo nos mínimos detalhes.

Acontece que eu vinha de uma família presbiteriana, fato que, por si só sem dúvida, o faria tremer dentro da batina, me profetizando o fogo do purgatório.
Entretanto, se não era católico, com certeza eu queria casar com Ida.De outro lado, não desejava também passar por cristão novo. Criado sob o lema da verdade, na moral protestante não haveria de mentir. Mas o raio do reverendo insistia em indagar tim  tim por tim, tudo nos mínimos detalhes, até que me perguntou:

– “O senhor é batizado?”

Na verdade, queria saber se eu fora batizado na Igreja católica romana, mas deixou a indagação um tanto vaga. Fiquei numa encruzilhada. Mentir, não queria. Falar a verdade, complicava. Estava a medir o meu apuro, quando, aproveitando a dubiedade da pergunta indiscreta, apropriadamente, me lembrei da historinha dos dois frades que gostavam de fumar, porém não sabiam se o Prior do convento permitia.

O primeiro, bem mais jovem, bateu à porta, entrou e logo saiu muito triste, sacudindo a cabeça com ar desalentado. O segundo, capuchinho experiente, quando de volts fechou a porta atrás de si, acendeu o cigarro, indo fumara serenamente no jardim. Foi daí que o frade novo se rebelou: Que injustiça é essa? Isso não pode acontecer num convento. A mim, o Prior negou o direito de fumar e a você autorizou? Ou você está mentindo?

Estirando o capucho, o franciscano antigo sorriu com piedade: Nem privilégio, nem mentira. Como foi que você perguntou? Perguntei se no convento era permitido fumar. E ele grosseiramente me disse: – não!

Pois é, disse o velho, tudo se resume em saber perguntar. Eu apenas perguntei ao Prior se na frente dele era permitido fumar. Ele me disse que não, que não era permitido. Ora, como não estou na frente dele, posso fumar. Não há, portanto, injustiça nem mentira.

Foi exatamente assim, pelo avesso, o que pensei, quando o padre me perguntava se havia sido batizado. Nada mais lógico do que dizer: sim. Embora o meu batismo tivesse sido na Igreja Presbiteriana Independente. Fiquei em paz com minha consciência e o pároco com a certeza de que eu era um bom católico.

Enrolado ainda nessas lembranças, apenas ouvi ida dizer que estava indo comprar as flores, quando já saía.Voltou logo com um apanhado de rosas. Retirou a foto do álbum e foi direto para a casa vizinha. Bateu à porta – Sílvio Campestre atendeu e chamou a mulher:

– “Marina, flores para você

A matraca acorreu pressurosa, enxugando as mãos no avental encardido.

– “Pois é, cara vizinha, soube que está fazendo aniversário de casamento, resolvi    lhe trazer umas rosas para comemorar.

Atarantada, estranhando a gentileza à que não estava acostumado, meio sem jeito, convidou Ida para entrar.

Já na sala, acomodada na cadeira perrengue, Ida disparou:

“A senhora tirou fotografia de casamento, dona Marina”?

Não, dona Marina não tinha foto de casamento.

– “Pois eu trouxe a minha. Se não se incomodar, lhe mostro a minha.

Quando chegou de volta, Ida estava radiante:

– “Agora quero ver o que ela vai inventar.”.

Pois, inventou. A megera era mesmo a mulher do piolhento encarnada. Todos conhecem a estória que o folclore de Portugal nos legou.

A saloia brigou com o marido e o chamou de piolhento. O Manoel enfezou e lhe disse que lhe daria uma surra se repetisse a ofensa. A danada em vez de se intimidar, gritou de novo – piolhento – e a inda, com a unha do polegar direito esfregando no esquerdo, fez o gesto de estar matando o pedúculo sugador. O portuga lhe dá uma surra e ela teimosamente não se arrefece. Grita de novo – piolhento – e repete com os dedos a cena de matar piolho. Era demais.

Transtornado, amarra-lhe uma pedra nos pés e a atira bem no meio da corrente tumultuosa do rio. O corpo vai afundando e a tranqueira gritando: piolhento! Quando já não mais podia falar, cabeça coberta pelas águas, põem as mãos para cima e, com um polegar sobre o outro, ainda xinga, fazendo o gesto-chave de matar piolhos.

Pois foi assim que fez a dona Marina. Mirou, remirou a fotografia enquadrada na moldura. Sorriu amarelo e fez um elogio. No dia seguinte, saiu pela vizinhança, falando de casa em casa que de fato vira um retrato de casamento. O homem era eu com certeza, mas a mulher, não era a Ida, não.

 

 

* Este artigo está sendo publicado em três partes (dias 22, 23 e 24 de abril)
* Revisão Maria Elisabete Costa Grinaboldi em 06/01/2026
Tags: homenagemHora CampinaslegadoMemóriaMinha jangada de velasparte finalRubem Costa
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