Por que só agora? Como não perceber algo tão claro? Perguntas assim são levantadas em casos de violência sexual. E são questões delicadas que agora também fazem parte da vida do casal envolvido na denúncia de assédio sexual contra o líder religioso de um terreiro de umbanda de Campinas. Manipulação e exploração da vulnerabilidade são a base do controle das vítimas, acredita João, nome fictício do marido de uma das quatro pessoas que denunciaram por assédio e violência sexual Domingos Forchezatto, Babalaô do Terreiro Pai Tajubim.
“Troquei meu papel de marido pelo de terapeuta, de investigador. Tirei uma venda dos meus olhos, me desacorrentei. Vi que tinha julgado errado outras pessoas. Então me preparei para fortalecer minha esposa para podermos agir, porque a próxima vítima poderia ser minha filha, e não só por ela, mas por todas as mulheres”, disse João, sobre o amadurecimento da decisão de revelar os abusos sofridos pela mulher, que tiveram início cerca de sete anos atrás.
Quando as circunstâncias do assédio foram reveladas pela esposa de João, há pouco mais de um mês, todas as pessoas da família que frequentavam o terreiro tinham se decidido deixar a casa e o caso para trás. A portas fechadas, João conversou com o Babalaô e passou tudo a limpo.
“Falei que sabia de tudo que tinha acontecido. Ele não teve coragem de negar nada. Concordou, ficou quieto e ainda me disse: ‘eu vou pagar pelo que fiz, os orixás vão me julgar’. Eu disse que ele tinha perdido tudo de mais bonito que existia, que ele era como um pai para mim. Que tinha abusado da minha esposa, da nossa fé e confiança”.
O afastamento, porém, não passou despercebido no terreiro. As notícias se espalharam, até chegar a outras vítimas, que decidiram se manifestar. “Tenho sonhos toda noite, faz mais de um mês que não durmo, mas nesse tempo todo, fui agindo com cautela, foram aparecendo as pessoas certas, na hora certa no nosso caminho para que tomássemos a decisão de revelar tudo e recorrer à Justiça”, recorda.
Segundo João, hoje várias coisas têm um sentido diferente e muitas ações são vistas de outra forma por ele.
“Tudo é manipulação. Percebi que ele me usava para me afastar da minha mulher, porque ela estava perto de revelar tudo e ele queria desacreditá-la quando ela me contasse o que tinha ocorrido. Tenho a memória fotográfica, percebi que as coisas estavam erradas e fui ligando os pontos. Vi que não era uma relação de pai e filho que tinha com ele, era abuso.”
“Ele usa o medo das pessoas para dominá-las. Ele tentou me separar da minha esposa para me jogar pro lado dele e me fazer achar que minha esposa era a errada. Também tentou destruir nossa credibilidade. Quando percebi, vi que todos os problemas da minha vida era ele que criava e depois vinha com uma falsa solução. Ele conhecia melhor do que ninguém as nossas vulnerabilidades”, acrescenta.
Com a desculpa de realizar atendimentos espirituais especiais, conta João, o Babalaô levava o casal para trabalhos na Aldeia, uma sede mais afastada do terreiro. Lá, separava o casal e cometia abusos contra a esposa de João. Houve situações, conta, de contatos sexuais quando sua esposa estava com o filho no colo.
“Tive que tirar meu papel marido, meus sentimentos, e analisar toda a situação. É inconcebível você passar num atendimento espiritual e a pessoa colocar a mão na sua vagina, com a desculpa de que precisa te passar energia. Aonde alguém tem de tocar em alguém, e com a minha filha no colo? Foram muitas outras coisas que aconteceram. Não quero abalar a fé de ninguém, a atitude errada de um homem não deve mudar o que as pessoas pensam sobre uma religião”.
A fé de João na umbanda continua forte, apesar dos julgamentos negativos que recebe de algumas pessoas com quem costumava dividir o terreiro. “A umbanda não tem culpa de nada, esses líderes sem caráter se aproveitam de qualquer tipo de religião. Pegam seus pontos fracos, você chega até ele mal, se abre, ele sabe todas as suas fraquezas e dores. Aí esse homem que você confiou se aproveita. Ele cria uma doença e uma falsa cura, para ir se aproveitando cada vez. Na hora que você vê, já está envolvido com tudo isso, por mais inteligência que tenha”, acredita.
Justiça
A 1ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Campinas instaurou inquérito para apurar as denúncias de assédio e violência sexual contra o diretor espiritual, reveladas pelo Hora Campinas nesta quinta-feira (15). A esposa de João já foi ouvida e novas testemunhas foram arroladas para depor. A revelação do caso, acredita ele, fará com que mais vítimas tenham coragem de buscar a justiça.
“Da minha parte, não quero ter vergonha de ser homem. Quem faz o que ele fez não é homem, é monstro. Tomei como propósito de vida que eu não quero mais isso pra ninguém. Nunca rezei tanto quanto rezo agora, minha fé nunca esteve tão forte. Sei que a justiça será feita, porque foi esse o caminho que nós escolhemos”, garante.
Na esteira da denúncia, além da pressão da sociedade e do julgamento diário, João e sua família também vivenciam a sensação de insegurança. “A gente tomou uma atitude, teve coragem, mas sabe as consequências disso. Tenho medo pela minha vida e da minha família. Saio o mínimo possível. Além da parte espiritual que imputa na gente um monte de medo, ainda tem toda a parte física, posso estar no meio da rua e acontecer alguma coisa”, diz.
A família e os amigos acompanham as ações da justiça enquanto aguardam pelo desfecho das investigações. João confia que mais mulheres que foram vítimas surgirão para confirmar as denúncias levantadas primeiro por quatro mulheres. “Por nós, queremos uma resposta rápida da justiça. Adoraria que saísse uma prisão preventiva pelo menos. Não sei quantas vítimas precisam aparecer para a justiça andar. Todo mundo tem direito de defesa, eu sei, mas é complicado, a gente entende de um jeito e as coisas são um pouco diferentes”.
Por fim, disse que ainda trabalha com o fato de que, além de ser vítima, a esposa precisa encarar julgamentos e o desconforto de ser mal vista ou mal interpretada.
“Digo para ela todo dia que a principal pessoa que poderia estar contra ela e não entender a situação está aqui do lado dela, sou eu, seu marido. Te amo e te dou todo o apoio. Eu sei que você é vítima”.
A reportagem do Hora Campinas tentou várias vezes contato com o líder espiritual, que não atendeu às ligações. O portal está aberto ao posicionamento do suspeito e de seus advogados.
CONFIRA A PRIMEIRA REPORTAGEM DO CASO
Líder de umbanda de Campinas é acusado de assédio e violência sexual









