Vivemos em 2026 sob uma lógica cada vez mais intensa de exposição, validação e performance. As redes sociais, que inicialmente prometiam conexão, tornaram-se, para muitos, um verdadeiro palco psíquico onde a existência parece depender do olhar do Outro. Curtidas, comentários e seguidores deixaram de ser apenas métricas digitais e passaram a funcionar como sinais de aceitação, pertencimento e, em muitos casos, de valor pessoal. O sujeito contemporâneo, então, se vê capturado por uma necessidade quase compulsiva de agradar; não a si mesmo, mas àquilo que imagina que o Outro espera dele.
Na psicanálise, especialmente a partir de Freud e Lacan, compreendemos que o sujeito se constitui na relação com o Outro. É no campo do Outro (da linguagem, da cultura, das normas sociais) que nos formamos. No entanto, há uma diferença crucial entre se constituir a partir do Outro e viver exclusivamente para satisfazê-lo.
Quando o desejo do sujeito é substituído pelo desejo do Outro, ocorre um esvaziamento da própria identidade. O sujeito deixa de perguntar “o que eu quero?” para viver em função de “o que esperam de mim?”.
Essa dinâmica se intensifica no ambiente digital. A lógica dos algoritmos reforça comportamentos que geram aprovação e invisibiliza aquilo que não performa bem. Assim, o sujeito aprende, muitas vezes inconscientemente, a moldar sua imagem, suas opiniões e até suas emoções para se adequar ao que é mais aceito. Surge, então, a máscara social: uma versão editada, filtrada e cuidadosamente construída de si mesmo. Não se trata mais de ser, mas de parecer.
O problema é que sustentar uma máscara tem um custo psíquico alto. A desconexão entre o eu real e o eu apresentado pode gerar angústia, ansiedade, sensação de vazio e até quadros mais graves de sofrimento emocional. Afinal, quando tudo é feito para agradar o Outro, o sujeito se afasta de si mesmo. E quanto mais distante de si, mais dependente da validação externa ele se torna. criando um ciclo difícil de romper.
A necessidade constante de aprovação também revela uma fragilidade na constituição do desejo. Um sujeito que não reconhece ou não sustenta o próprio desejo tende a se apoiar no olhar do Outro para se orientar. Mas esse olhar é instável, mutável, muitas vezes superficial. Hoje aprova, amanhã rejeita. E assim, o sujeito fica à mercê de um jogo que nunca se estabiliza, sempre buscando mais curtidas, mais reconhecimento, mais confirmação de que “está tudo bem”.
A psicanálise propõe justamente o contrário desse movimento: um retorno ao sujeito. Um espaço onde não é preciso performar, agradar ou corresponder a expectativas. Um lugar onde se pode falar livremente, sem filtros, sem máscaras. Ao longo do processo analítico, o sujeito é convidado a se escutar, a reconhecer seus próprios desejos, suas faltas, suas contradições e, a partir disso, construir uma posição mais autêntica diante da vida.
Romper com a necessidade de agradar o Outro não significa viver isolado ou indiferente às relações, mas sim deixar de depender exclusivamente delas para existir. Significa sustentar quem se é, mesmo quando isso não gera aplausos. Significa trocar a aprovação superficial pela construção de um desejo próprio, mais sólido e verdadeiro. Se você percebe que está vivendo mais para o olhar dos outros do que para si mesmo, talvez seja o momento de iniciar esse processo de reencontro. Te convido a dar esse passo.











