O Novo Marco Legal do Saneamento completa 5 anos. E eu, por feliz coincidência e propósito, completo 30 anos de estrada nesse setor que pulsa de norte a sul do país. Foram três décadas nos bastidores e nos bastiões do saneamento básico brasileiro. Vivi fases de esperança, avanços tímidos e longos períodos de pura estagnação. Quem acompanhou, lembra bem da frase que virava bordão em anos pré-eleitorais: “Daqui a dois anos melhora.” E assim os sonhos iam sendo empurrados.
Por muito tempo, os índices de acesso à água potável e à coleta de esgoto mal se moviam. As disparidades regionais, por sua vez, continuavam gritantes. Mas seguimos. Por amor ao saneamento, à saúde pública, ao meio ambiente e, principalmente, às pessoas.
Hoje, o jogo começa a virar. O tema entrou na pauta nacional. E não foi por acaso: foi por urgência.
O novo marco legal foi um divisor de água com trocadilho, mas com verdade. Ele acabou com os antigos contratos de programa entre prefeituras e estatais e estabeleceu novas regras: agora é preciso licitar. O setor abriu espaço para as concessões via leilões e definiu metas ambiciosas: 99% da população com acesso à água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033.
Outro ponto fundamental foi o papel da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico), que passou a definir normas de referência para o setor, promovendo mais técnica e menos improviso.
Claro, o modelo ainda demanda ajustes. Mas foi ele que destravou o setor. Trouxe segurança jurídica, reforçou a regulação e atraiu o setor privado. Isso gerou confiança. E confiança gera investimento. Projetos antes engavetados começaram a sair do papel. Obras tomaram forma. Resultados começaram a aparecer.
Mas universalizar o saneamento não é só uma questão de cifras, embora os R$ 900 bilhões estimados em investimentos sejam essenciais. É uma questão de gestão inteligente, foco em impacto real, inovação constante e eficiência inegociável.
É urgente enfrentar as perdas de água, investir em tecnologia, respeitar a diversidade dos nossos territórios e colocar as pessoas no centro da gestão. Também precisamos aproximar as empresas da sociedade, enfrentar os impactos das mudanças climáticas e garantir segurança hídrica com políticas públicas consistentes.
E vale reforçar: esse não é um papel exclusivo de governos ou operadores. Cidadãos conscientes cobram, cuidam, se conectam às redes, usam água com responsabilidade. Saneamento não é luxo. É saúde. É dignidade.
Estamos construindo, passo a passo, uma nova mentalidade. Uma forma de pensar o saneamento que vai além de obras e indicadores. Um entendimento de que esse setor é alicerce de um país mais justo, resiliente e sustentável.
Porque quando a água limpa chega a uma casa, a dignidade entra junto. E com ela vêm saúde, educação, autoestima.
Nessas três décadas, vi o Brasil engatinhar. Vi profissionais brilhantes resistirem, comunidades esperarem, políticas travarem. Mas também vi e sigo vendo o despertar de uma nova consciência.
Hoje, olho para essa caminhada com gratidão. Cada metro de rede, cada estação, cada criança com água limpa na torneira é uma vitória silenciosa. Mas transformadora.
O saneamento ainda é um desafio imenso. Mas é, acima de tudo, uma promessa. A promessa de um Brasil que começa a se reerguer a partir do essencial.
Ana Rizzo é relações públicas e atua no setor de infraestrutura, com foco em saneamento básico.











