Estamos em pleno dezembro, fechando 2025. Compromissos escolares e acadêmicos só retornarão daqui a um trimestre, mais ou menos. Os de ordem profissional cessam para muitos, o clima de férias vai imperando, mas temos também um pessoal muito ativo para fechar a temporada e atender à demanda das festas e da época.
Uma matéria elegante, esteticamente agradável, apresentada na mídia Uol, dia 07/12 passado, pela jornalista Carol Scolforo, especializada em Arquitetura, sugere: “Casa no interior de SP realiza o sonho de viver em eterno clima de férias”.
A ideia de “férias eternas” é um dos grandes mitos da nossa civilização do esgotamento.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han escreveu (edição brasileira em 2023) o livro: “A Sociedade do Cansaço”, onde procura apontar que o mundo da disciplina mudou para o do desempenho. O autor é crítico desse esforço, entendendo que nós adoecemos mais, entramos em esgotamentos, estresses, “burnouts” e outros sofrimentos.
Penso um pouco diferente do Han. Entendo que o desempenho pode ser forte e muito saudável, quando bem aproveitado. E, para as pessoas que bem equilibram esforços e compensações, chega a ser prazeroso.
Aqueles que se sentem injustiçados, com seus empenhos pouco gratificados, muitas vezes extrapolam, tentando acreditar na promessa sedutora de uma autonomia radical, onde a obrigação desaparece e o prazer flui sem interrupções. No imaginário coletivo, essa utopia da indolência é a recompensa última, o refúgio final da ilusão marxista, uma superação da alienação do trabalho.
Entretanto, ao examinarmos essa perspectiva utópica com uma inspiração mais psicológica, deparamo-nos com uma incoerência fundamental. O prazer, em sua essência, é uma contingência; ele se caracteriza pelo contraste e pela ruptura com o esforço e a rotina.
O maior dos prazeres físicos é bem concentrado e curto. Um orgasmo dura, em média, poucos segundos (o masculino não chega a dez; o feminino pode chegar a vinte). É claro que um êxtase tão intenso quanto o orgástico não deve mesmo ser prolongável. Pode ser repetido, mas, como todo prazer, precisa de um descanso, um período refratário.
Entre uma exaltação, um grande pico extático, e uma experiência satisfatória, contínua, podemos aproveitar os dois, conforme as circunstâncias.
A pessoa que consegue levar sua vida com boa destreza, administrando suas frustrações, não se verga ao peso delas, nem se estressa com a expectativa desesperada por gratificações, podendo viver com a ótima impressão de prazer predominante, leve e sequencial.
É como o trabalhador que faz um bom acordo com a empresa onde exerce a profissão, sempre renovável, ganha estabilidade funcional, dedicando-se dinamicamente ao labor diário sem ânsia desesperada de chegar à aposentadoria.
O filósofo de origem baiana, Henrique José de Souza, foi muito oportuno e esclarecedor quando criou a frase: “A humanidade é infeliz por ter feito do trabalho um sacrifício e do amor um pecado”.
Vivenciar o trabalho como labuta penosa é realmente frustrante e desagradável. Só cabe esperar ansiosamente pelas férias e por uma aposentadoria a mais precoce possível…
A fantasia do prazer ininterrupto é, em sua própria natureza, insustentável.
As férias, pela própria definição, correspondem a um intervalo de trabalho, uma contingência da sequência profissional. Se alguém entrasse em “férias eternas”, ele não mais seria um trabalhador, equivaleria a um aposentado, sem obrigações funcionais. E, provavelmente, frustrado…
O psicólogo húngaro-americano Mihaly Csikszentmihalyi descreve o estado de “flow” (fluxo) como o prazer máximo na atividade: quando o desafio da tarefa corresponde exatamente à sua habilidade.
No início da década de 1990, ele desenvolveu este conceito do “flow”, que corre na intermediação da angústia e do aborrecimento. A angústia: desafio muito alto em relação à habilidade da pessoa – a atividade gera estresse e ansiedade.
O aborrecimento: habilidade muito alta em relação ao desafio – a atividade gera tédio e apatia.
Entre esses polos, do trabalho esmagador ao enfadonho, funciona o curso equilibrado e satisfatório do “flow”.
As férias, para quem consegue esse fluxo profissional, também serão aproveitadas sem ansiedades estapafúrdias ou enfados pesadíssimos.
Por que nos ansiar insistentemente pela folga, pela fuga, se o ócio pretendido rapidamente se anula pela saturação e pelo tédio?
O “fluxo” contempla mais jornadas, menos sacrifícios, esforços sem esgotamento, folgas sem carências expansivas.
A vida, em seu contexto geral, adotando um modelo de “flow”, também adequaria melhor os desempenhos e as recompensas, nos vários papéis e trajetórias das pessoas.
E, para quem guarda uma perspectiva religiosa, a ânsia em alcançar o Paraíso deixaria de ser uma ansiedade de fuga (do sofrimento) para uma expectativa de plenitude garantida (do bem perfeito).
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor









