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Home Opinião

Artigo: Imunizações contraditórias – por Joaquim Z. Motta

Redação Por Redação
10 de fevereiro de 2026
em Opinião
Tempo de leitura: 4 mins
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Campinas inicia hoje aplicação da quarta dose contra Covid para 40+

Foto: Leandro Ferreira/Hora Campinas/Arquivo

Durante e após a epopeia da pandemia de Covid – 19, a necessidade de encontrar novas defesas imunológicas provocou uma polêmica intensa e extensa no mundo todo. Ao mesmo tempo em que se trabalhava empenhadamente à procura de imunizações, a desconfiança nos métodos e experiências crescia, de modo que as vacinas ficaram acuadas e sob suspeita.

Para um médico, era tudo muito estranho. Uma das mais decisivas e fundamentais lições que aprendi na faculdade foi a de que vacina é prevenção essencial; afinal, é muitíssimo melhor prevenir do que remediar.

De certo modo, as vacinas são vítimas do seu próprio sucesso. Se não tivéssemos, pegando um único exemplo, a gotinha Sabin, o horror da paralisia infantil (poliomielite) ainda acometeria um número insuportável de crianças.

A confusão criada pelo medo da Covid-19 foi mesmo caótica e enlouquecedora. Todos se sentiam vulneráveis, as mortes sugeriam números apavorantes, as contaminações despertavam seguidamente mais dúvidas e inseguranças. E a mídia martelava as notícias trágicas sem piedade.

O conflito implicava dois tipos de pânico: de um lado, a virulência desconhecida, um colapso sanitário; de outro, a desgraça econômica, miséria e colapso social. A situação era tão estressante que os governantes estavam diante de uma escolha absurda: definir entre o “ruim” e o “pior”.

O mundo teve que parar, a maioria se trancava em casa, pois a sobrevivência é sempre o que mais importa. A gestão da tragédia foi difícil, complexa, sustentando polarizações políticas e científicas que ecoam até hoje.

O pessoal que defendia e defende as vacinas tem o resultado prático indiscutível: a Covid-19 foi controlada. Os que criticavam as vacinas continuam a fazê-lo, profetizando que mais à frente as suspeitas serão confirmadas…

As posições extremistas e tendenciosas dessa fase biológica reforçaram-se e renovaram-se intensamente com as polarizações da política.

Apesar de algumas contradições, exageros e confusões com os valores da Direita e da Esquerda, cada polo tentou se garantir, teimar e insistir nas suas próprias ideias, conceitos e preconceitos.

Aqui reside uma ironia: vacinar é uma tradição cultural implantada desde o final do século 18. Nada seria tão propriamente conservador — típico da Direita — do que zelar pela ordem social através de uma vacina. No entanto, foi a Esquerda quem mais se empenhou por isso. Os extremismos, alimentados pelo pavor, favoreceram essa inversão de condutas. Essa enorme dificuldade que uma pessoa polarizada tem em ouvir, refletir e elaborar opiniões diferentes é que se convencionou chamar de “imunização cognitiva”.

Andy Norman, filósofo e pesquisador norte-americano, não criou a expressão, mas desenvolveu muitos estudos e reflexões sobre essa concepção.

Os mais radicais, dos dois lados, são os que mais intensa e profundamente se comportam como cognitivamente imunizados. Eles não suportam nem mesmo ouvir algum mínimo argumento razoável dos que pensam diferentemente.

Uma lição inspirada em Aristóteles (ou em sua sabedoria clássica) é muito útil e interessante para se combater a imunização cognitiva.

É uma reflexão que mexe nos pilares fundamentais da filosofia e da psicologia cognitiva: a abertura intelectual, a maturidade emocional e a comunicação não violenta.

Vamos explorar como esses conceitos funcionam na prática para expandir nossa compreensão.

A mente bem-educada, amadurecida, não preconceituosa, funciona como um filtro, não uma esponja. Equivaleria a entreter um pensamento, vendo-o, revendo-o, podendo ou não concordar com ele, aceitá-lo ou não, julgando-o. Daí, então, absorvê-lo ou rejeitá-lo. Em vez de reagirmos instintiva e impensadamente, (aceitando ou recusando algo de imediato), a inteligência nos permite “segurar” a ideia, examiná-la de diversos ângulos e, se rejeitada, devolvê-la ao lugar de onde veio, sem que ela nos contamine. É o que se chama hoje de “pensamento crítico”.

Os ensaios de um pensamento crítico não criam competição, visam incrementar e qualificar os conhecimentos, sem objetivos de “ganhar uma discussão”. Eles buscam alcançar uma verdade maior, aprimorar a sabedoria.

Para um sábio ou um competente líder espiritual, o “ataque” que a ideia discordante provoca não é um problema de biologia restrita, mas de percepção sensorial mais ampla e humana.

Enquanto a amígdala interpreta a oposição como um “predador”, o espírito treinado sente apenas um “ruído”, algo incômodo, mas que não impede uma oportunidade de exercício racional e sentimental.

A amígdala é o centro do medo no cérebro “neuronal”. Quando ouvimos algo que desafia nossas razões científicas, ideologias políticas ou crenças religiosas, esse dado novo, nesse plano vegetativo, seria uma ameaça existencial.

No contexto elaborado, no cérebro “mental”, se alguém diz uma fake news ou uma ofensa, o sábio não se sente atingido porque sua paz depende essencialmente da sua própria razão.

Como o ataque ou a mentira veio de outra mente, o ofendido não tem controle sobre isso. Isto é, ninguém pode ferir você sem o seu consentimento. Quando se sente ofendido, foi você mesmo que se ofendeu, dando importância ao que não controla.

Um mestre espiritual vê aquele que agride ou mente não como um inimigo, mas como alguém que está enfraquecido, em sofrimento e/ou em ignorância.

Um sábio budista ensinaria que é preciso diminuir o tamanho do ego para que as ofensas não tenham onde “bater”…

 

Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor

 

 

Tags: ArtigociênciacomportamentoCovid-19Hora CampinasimunizaçãonegacionismoOpiniãoPandemiapolarizaçãosaúde
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