Laura não é a professora dos modelos pedagógicos polidos, dos seminários impecáveis e, sobretudo, dos formulários preenchidos a tempo. Ela é a antítese do funcionário padrão, e seus dias são um manifesto, nem sempre silencioso, contra a burocracia, os protocolos e as hierarquias que, paradoxalmente, deveriam servir à educação, mas que frequentemente a engessam. Ela prepara seu planejamento semanal, mas odeia o diário de classe. O preenche por pura obrigação, reconhecendo a importância fria da padronização, enquanto vive avessa a processos.
Essa aversão nasce de uma alma que guarda o ar das professoras das antigas. Laura não é apenas uma servidora pública; é uma força na comunidade. Ela encarna a figura da educadora que não hesita em ir bater na porta do vereador ou do prefeito, agindo com a audácia de uma diretora escolar de outrora – aquelas que pareciam ter “comprado a escola” e não temiam o confronto em defesa de seus alunos.
Essa ousadia tem raízes complexas. Filha de uma família falida da construção civil, Laura carrega consigo a aura de quem já transitou e atuou para os “quatrocentos da cidade.” Sua postura não é de quem implora, mas de quem exige, ciente de que o sobrenome, embora desprovido de capital, ainda carrega um peso de influência. Essa combinação de rebeldia nata e berço falido faz dela uma figura contraditória e, aos olhos de alguns, uma autêntica “doida.”
Sua irreverência, contudo, é a bússola de sua ética profissional. Recentemente, essa aversão ao status quo a levou a uma investigação audaciosa. Incomodada com a disparidade salarial das amigas professoras de escolas conveniadas – suas parceiras do time de vôlei – ela iniciou uma cruzada por transparência. Pediu o orçamento municipal da educação e o custo por aluno, atormentando vereadores de todo o espectro político, de esquerda a direita. Se essa atitude foi fruto de um “período de mania” de seu suposto transtorno bipolar, como alguns sussurram, ou apenas de uma inquietude indomável, não importa. O que importa é que ela se recusou a aceitar o silêncio e o tratamento desigual.
Para Laura, o ensino transcende o conteúdo programático. Sua função é resolver problemas de quem está por perto. Se um aluno precisa de uma consulta no posto de saúde, de um par de calçados, ou de qualquer auxílio que vá além dos limites formais da sala de aula, ela “dá um jeito.” Ela tem consciência de que não está ali para fazer serviço social, mas sua vocação se materializa na ação. Ela ensina mais pela postura, pelo exemplo concreto de um ser humano que se importa e que se move.
Laura se orgulha profundamente de sua missão, mas é realista: reconhece que sua entrega e abnegação não podem ser o padrão ou a expectativa de toda a categoria. Sua vida de professora solteirona, com tempo de sobra, permite-lhe mergulhar onde o sistema falha, resolvendo o que se perderia nos prazos da burocracia.
Seu ato mais recente é o mais pungente. Na Semana do Professor, ela não estava em celebrações protocolares, mas sim no posto de saúde. Com a permissão do Conselho Tutelar, acompanhava uma aluna de 13 anos, vítima de uma gravidez e um aborto espontâneo. Observando com compaixão a sobrecarga dos serviços e do assistencialismo, ela usou seu tempo e sua vontade para garantir que a jovem recebesse o cuidado e a atenção que, de outra forma, não chegariam a tempo.
Laura pode ser muitas coisas – rebelde, antiga, obsessiva –, mas não é uma heroína.
O que ela é, na verdade, é um erro no sistema. Ela é a falha humana que se manifesta quando o protocolo é insuficiente e a burocracia trava. E há muitas Lauras. Há muitas professoras rasgando o protocolo diariamente, não por desejo de heroísmo, mas em razão das falhas e do vácuo deixado pelo sistema. Laura faz tudo que faz por humanidade, sim, mas também porque adora a tranquilidade de tomar um bom café nas ruas de Campinas, o contraponto simples e humano à complexidade da missão que abraçou.
Vanessa Crecci é Doutora em Educação pela Unicamp e professora da Rede Municipal de Campinas











