Um ano depois da proibição dos celulares nas escolas de ensino fundamental e médio, agora é a vez das universidades. Na semana passada, duas instituições privadas de São Paulo decidiram proibir o uso do aparelho durante as aulas e outras, de modo mais ameno, fizeram recomendações semelhantes.
O gesto, que tende à vigilância e à punição, é apenas o remédio para um sintoma muito desconfortável, cuja causa é a falta de letramento midiático. Da mesma forma, como paliativa, está a nostalgia de uma época em que a sala de aula era um espaço controlado, com um professor que (aparentemente) detinha toda a autoridade, sob a justificativa de “transmitir” conhecimento. Incontestável incômodo é saber que esse paradigma mudou e as causas disso não chegaram pelas mãos de um professor. Elas surgiram intrépidas por aparelhos que cabem nos bolsos, nas palmas das mãos, nos pulsos.
Desde então, convivem o plano docente e uma espécie de currículo paralelo, nutrido por algoritmos e plataformas mestres em produzir distrações. A disputa é injusta, quase sempre. De um lado, a necessidade de um raciocínio sequencial, teoria, reflexão e prática, além do envolvimento com uma grade curricular de diversas disciplinas e atividades que exigem criatividade e pensamento, a serem provados e mensurados. Como é natural diante de tanta expectativa, alguma frustração é inevitável, seja pela necessidade de reler aquele texto mais hermético, ficar de recuperação naquela matéria odiada, refazer o cálculo que não deu certo ou rever aquela orientação não absorvida. Com a tela, é tudo mais fácil, com recompensa imediata. A vocação ao narcisismo encontrou seu melhor espelho.
O debate, no entanto, costuma parar num nível dicotômico, quase maniqueísta. Proibir ou permitir? Punir ou tolerar? Os estudantes chegam ao Ensino Superior sabendo operar dispositivos, mas sem repertório consistente para avaliar informação, reconhecer interesses, distinguir evidências ou sem notar como as plataformas moldam comportamentos. Como uma certa luz, documentos da Unesco sobre letramento midiático insistem justamente no fato de que o acesso à informação e à conectividade não se converte em inclusão, tampouco em autonomia.
Assim, pelo menos desde a década de 1980, discute-se a importância da leitura crítica da mídia. A despeito de muitas iniciativas positivas, essa competência é mais uma das que não acompanharam a universalização da educação formal. Numa época como a nossa, em que a luta contra a desinformação é uma necessidade indiscutível, a proibição pode surtir efeitos imediatos, enquanto não houver um trabalho de letramento.
Não ajuda o debate fingir que o déficit é apenas dos estudantes. Parte do corpo docente foi formada num mundo em que as tecnologias de hoje pareciam ficção científica. Medidas restritivas exercem um papel emergencial, não porque o celular seja um vilão em si, mas porque é difícil ensinar com os métodos clássicos quando a atenção está partilhada com o uso indiscriminado das telas. A restrição, ao menos, ajuda a devolver a presença à sala de aula, uma de suas características fundantes.
O problema é a ilusão de que a questão está resolvida. Se a universidade se limitar a guardar aparelhos, o máximo que conseguirá é uma política de silenciamento. Cala-se o que denuncia fragilidades, mas não se corrige a causa. A disputa já reaparece por outras portas, como no relógio inteligente, no tablet para anotações, na cultura do jeitinho ou até na infantilização, em que o professor passa a exercer também o papel de fiscal. Por isso, a medida de proibição só tem sentido se abrir espaço à criação de uma política consistente de letramento midiático, integrada às práticas pedagógicas.
Essa reflexão implica reconhecer que a tecnologia não deve, ao contrário do que tem sido, ser tratada como um mero recurso para deixar uma aula mais dinâmica e parecer atualizada. Se assim for, o receio de uma sociedade com reduzida cognição estará mais perto de se consolidar. No lugar disso, ela precisa ser incorporada como dado cultural, envolvendo um trabalho que chamarei aqui de três Cs: curadoria, criticidade e cocriação. Em vez de delegar às plataformas a seleção do que merece atenção, a universidade deve provocar a descoberta. Como se constroem repertórios? Como se hierarquizam fontes? Com que evidências?
A pergunta central não é se pode ou não, mas para quê e por quê, de modo que a tecnologia vire cocriação, em que estudantes e professores trabalham com os recursos digitais, inclusive gerando as próprias ferramentas, sem abdicar do pensamento, da cientificidade e da descoberta. A instituição que restringe o celular tem a chance de dar um importante passo para o letramento midiático, fazendo com que a sala de aula volte a ser um lugar de formação da autonomia.
Que as comemorações pela proibição do celular não apaguem o protagonismo da universidade na construção do espírito crítico e de uma aprendizagem conectada ao nosso tempo.
Fabiano Ormaneze é Professor do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, da Unicamp, e curador no Centro Universitário Padre Anchieta (UniAnchieta).











